Programação da festa do padroeiro São José

19 de março – Dia do Padroeiro

Programação religiosa
07h30
– Missa Solene na Catedral de São José.
Após a missa procissão até a antiga Igreja de São José.
18h – Adoração Eucarística
19h – Missa de Encerramento da Festa
Local: Igreja de São José

Programação social
Festa dos Devotos
Horário: A partir das 10h encerrando às 17h
Local: Av. Mario Cruz em frente a Igreja São José
Atrações: Show com artistas locais, venda de comidas típicas, sorteio de prêmios e apresentações artísticas.

Show de Encerramento
Show Musical com Bandas Católicas e venda de comidas típicas.
Horário: 20h00
Local: Av. Mario Cruz em frente a Igreja São José.

Festa do padroeiro São José

As festividades em louvor a São José, padroeiro do Amapá, começam dia 1, domingo, com missa solene às 7h30 na Catedral seguida de carreata saindo  da Catedral de São José, em direção a Igreja Cristo Reino bairro Pedrinhas. Este ano, a Diocese de Macapá quer ir ao encontro dos devotos que residem mais distante das igrejas matrizes das paróquias. As comunidades de periferia serão o foco da visita da imagem.
Do dia 1 até o dia 10, a imagem do santo peregrinará pelas paróquias.
Do dia 10 ao dia 18 tem  novenário na Igreja de São José, com terço, ladainha e missa, sempre às 18h
.

A igreja de N.S. da Conceição

igrejadaconceicao1Padroeira do bairro do Trem, em Macapá, Nossa Senhora da Conceição ganhou sua primeira capela naquele bairro em dezembro de 1949. A capelinha foi adaptada numa casa de madeira, em frente à sede do Trem Desportivo Clube, cedida pelo professor Dionísio Monteiro.

Coube ao padre Arcângelo Cérqua entronizar a imagem de Nossa Senhora. Um mês depois um temporal derrubou a capela. A parede do fundo, onde estava a imagem, ficou intacta. Os devotos consideraram isso um milagre.

1957a - Construção da torreEm agosto de 1950 a nova capela foi inaugurada, no terreno onde é hoje a igreja. A primeira missa foi celebrada pelo padre Antonio Cocco.

Em maio de 1954, o bispo Dom Aristides Piróvano benze e inaugura a nova Igreja de Nossa Senhora da Conceição – que considero uma das mais bonitas.
Ela foi construída graças a determinação, empenho e esforço do padre Antônio Cocco.

Artigo dominical

O peregrino
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá   

 Certa vez, uma mulher muito pobre socorreu um santo mestre hindu, disfarçado de peregrino. Ela lhe deu hospitalidade, ao passo que muitos da aldeia o tinham enxotado. Na hora de se despedir, o peregrino lhe disse:

– Possa o teu primeiro trabalho de amanhã continuar para o dia inteiro

A boa mulher não entendeu este agradecimento e logo esqueceu as palavras do hóspede desconhecido. No dia seguinte, uma moça que ia se casar lhe trouxe um fio de ouro pedindo que bordasse o seu vestido de noiva. Com efeito, quando aparecia algum trabalho, a pobre mulher bordava. Ela desenrolou o fio e caprichou na encomenda. Quando acabou o serviço, percebeu que no chão tinha se juntado mais fios do que tinha no começo. Começou a recolhê-lo, mas quanto mais o enrolava, mais o fio se alongava. Passou o dia inteiro enrolando o fio. No final do dia, o novelo era de bom tamanho e sendo que, por tradição, a sobra do fio cabia de direito à bordadeira, ela pode vender o fio de ouro e, assim, ajeitar a sua casa e abrir uma pequena venda.

A notícia do caso extraordinário se espalhou pela vila. Dias depois, um rico comerciante encontrou o peregrino que estava voltando por aquelas bandas e o reconheceu pelas palavras da bordadeira. Convidou-o para ir à sua casa e o acolheu com todas as atenções. Pensou: “Se vou me mostrar generoso, com certeza, ganharei alguma coisa”.

Quando o santo homem se despediu, o comerciante pediu a bênção dele. O peregrino respondeu:

– Eu não dou bênçãos, mas lhe desejo que a sua primeira ocupação de hoje continue para uma semana inteira.

O homem correu imediatamente para o jardim da sua casa, onde estava escondido o cofre com o dinheiro. Pensava que se, naquele dia, estivesse começado a contar as moedas, iria contá-las a semana inteira e, desse jeito, elas se multiplicariam. No entanto, atravessando o quintal, teve sede. Parou no poço e encheu o balde de água. Não conseguiu mais parar. Tirou água do poço por sete dias. De tanta água, o jardim alagou e a casa dele ficou destruída.

É muito fácil entender que o amor quando é interesseiro deixa de ser tal, torna-se uma troca e perde o seu valor. No evangelho deste domingo, Jesus não dá uma simples resposta a uma pergunta – Qual é o maior mandamento da lei? – ele ensina mesmo o sentido do amor, ao menos como ele mesmo o entendeu, o viveu e quis transmiti-lo a todos nós.  O amor verdadeiro não se mede pela quantidade, porque de outra forma quem pode mais amaria mais, mede-se pela qualidade, ou seja, pela gratuidade. O amor verdadeiro só pode ser um dom, algo que sai do nosso coração e é oferecido, porque serve e faz bem ao outro e ao mesmo tempo a nós mesmos. O amor verdadeiro não deixa nenhum vazio, não faz sentir falta daquilo que doamos, pelo contrário, preenche outro vazio, aquele de um coração egoísta, incapaz de amar, cheio só de si mesmo, ao ponto que nele não cabe mais ninguém.

É por isso que Jesus une num só grande preceito o amor a Deus e ao próximo para que aprendamos a amar a Deus amando o próximo e, amando os nossos irmãos, comecemos a conhecer e a experimentar um pouco mais da realidade do nosso Deus, que é puro dom, pura generosidade, nada pede em troca, somente ama porque o amor é a natureza dele. Ele, Deus, somente pode amar.

É difícil entender isso, porque vivemos numa sociedade marcada por relacionamentos interesseiros; quase sempre pensamos que, cedo ou tarde, iremos ganhar alguma coisa em troca. Essa maneira de pensar está junto com o medo de doar, porque também temos medo de perder as coisas, de ficar sem elas. Sobretudo quando os bens que temos nos custaram algum esforço e um pouco de sacrifício.  Não queremos doar e depois reclamamos quando ninguém nos ajuda. Mas nós já ajudamos alguém pela simples felicidade de fazer uma obra boa, de fazer um irmão feliz? Por esse caminho vai ser difícil acreditar e confiar num Deus Pai bondoso, providente e generoso. Por isso, amparamo-nos, às vezes, com a “lei” do amor, cuidando de manter atualizada a lista das nossas boas ações. Ma o amor verdadeiro nunca será uma “lei” para ser meramente obedecida. Não se ama por medo do castigo. Não se ama para juntar pontos até conseguir o prêmio final. O amor verdadeiro só pode brotar de um coração livre, que sabe amar e fazer o bem, sem cálculo algum. Porque o amor se paga por si mesmo. É Deus amor em comunhão conosco e nós com Ele. Não tem recompensa melhor.

Artigo dominical

As joias da rainha
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

 Certo dia, Rabi Samuel estava de passagem em Roma quando encontrou, no caminho, algumas joias de raro esplendor. Ainda estava admirando aquelas preciosidades quando um arauto chegou para anunciar ao povo que a rainha tinha perdido todas as suas joias. Pela descrição eram, justamente, aquelas que Samuel tinha encontrado. Quem as devolvesse no prazo de trinta dias receberia uma boa recompensa, mas quem fosse encontrado na posse delas, após os trinta dias, teria a cabeça cortada, porque seria considerado um ladrão. Rabi Samuel fez exatamente o contrário. Apresentou-se à corte no dia seguinte ao vencimento dos trinta dias. Ao entregar as joias para a rainha, esta lhe perguntou:

– Tu não ouviste o meu anúncio?
– Com certeza – respondeu o rabi.
– Então por que desobedeceste?
– Para provar que estou te devolvendo as joias por temor a Deus e não por medo de ti.

Tocada por esta resposta a rainha exclamou:
– Bendito seja o Deus dos judeus!

O evangelho deste domingo nos apresenta mais uma armadilha dos inimigos de Jesus e a sua brilhante resposta. Pagar o tributo a César significava reconhecer a autoridade dele e, portanto, aceitar a submissão ao Império Romano. Os nacionalistas fanáticos e os descontentes revoltados nunca poderiam aceitar isso. Do outro lado, porém, os mais tolerantes e os que ganhavam com a circulação das moedas e das mercadorias achavam melhor pagar os impostos. Assim podiam continuar nos seus negócios sem ficar brigando o tempo todo. Se Jesus tivesse respondido que o tributo a César não devia ser pago, teria sido apontado como um revolucionário que ensinava a desobediência. Se tivesse respondido que precisava pagar o imposto, alguns dos próprios judeus o acusariam de traição à pátria, ao templo, às tradições. Nesta altura, Jesus pede que lhe mostrem uma moeda. Nela estavam a inscrição e a figura do imperador. A resposta final é bem conhecida: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que de Deus”.

Jesus se saiu bem, ainda chamando os questionadores de hipócritas, mas o que podem significar estas palavras para nós, hoje, quando “Império” é título de telenovela e o próprio país onde nós vivemos nos cobra impostos para a manutenção das estruturas e dos serviços sociais? Jesus queria nos ensinar a separar as coisas do mundo das coisas de Deus? Isso é realmente possível e seria também justo e correto?

Talvez a resposta esteja numa simples palavra, hoje muito explorada, mas nem sempre entendida e, sobretudo, aplicada. A palavra pode ser “ética”. Vou fazer o exemplo mais fácil da economia, a “ciência” – segundo alguns – que hoje domina o cenário do mundo. A economia funciona com o lucro e o crescimento. Todas essas palavras e esses dados são bem propagandeados. Nesse sentido, economia “boa” é aquela que dá lucro, vantagem. Custe o que custar e doa a quem doer. Tendo lucro, não interessa se alguém fica desempregado, morre de fome ou de guerra, de ebola, de overdose ou de câncer por falta de prevenção e de remédios. Ao contrário, agir com “ética” significa reconhecer que existe algum princípio ou valor que está acima do lucro, que deve ser considerado maior do que os próprios ganhos. Esses valores mais importantes são muitos: a vida digna das pessoas, o direito à liberdade de ir e vir, de morar no seu país em paz, de expressar a própria religião, de ter água e chão para cultivar, de ter leis respeitadas por todos e assim por adiante. São muitos os direitos humanos, tão badalados, mas tão pisoteados em tantos lugares do mundo.

Os “césares” da história humana são obcegados pelo poder e pelo lucro. Talvez nem acreditem em Deus, porque eles mesmos se consideram deuses, como no tempo do Império romano. Menos mal se ficassem sozinhos em suas loucuras. Muito pior é nosso medo de mudar as coisas, de acreditar para valer no Deus do amor, da paz, da fraternidade e da justiça, o Deus de Jesus Cristo. O horizonte material nos escraviza e amedronta. Com a liberdade, a fé e o temor de Deus, muitas joias da vida nos seriam devolvidas.

Mensagem de Dom Pedro para o Círio 2014

“O meu espírito se alegra em Deus meu Salvador” (Lc 1,47b)

A verdadeira alegria é coisa séria. Parece uma contradição, mas não é. O que acontece é que, muitas vezes, nós pensamos que alegria seja euforia ou barulho. O mesmo vale para as coisas sérias, ficam confundidas com tristeza ou cara fechada. Na alegria “séria” cabem o sorriso como também as lágrimas. Se pode chorar, mas não ter o coração abatido. Se pode sorrir apesar da situação difícil ou até dramática.

Tudo depende da fonte da nossa alegria. Se varia com os humores nossos e dos outros está sujeita à superficialidade. Se é condicionada pelos bens materiais está fadada à acabar com eles. Se for medida pelo entusiasmo de um sucesso, deve aguardar horas mais sombrias. A verdadeira alegria só pode estar junta com a fé em Alguém que não mente, não decepciona, porque é fiel e, sobretudo, porque nos ama sempre e sem condições. A fonte da verdadeira alegria só pode ser Deus. “Acaso uma mulher esquece o seu neném…Mesmo que alguma se esqueça, eu de ti jamais me esquecerei!” diz o Senhor (cf. Is 49,15). O mesmo fez o pai da parábola quando aguardou a volta do filho e fez festa “pois estava morto e tornou a viver” (Lc 15,24).

A alegria de Maria brota da sua confiança incondicional em Deus. Nela, Ele mesmo, finalmente, está realizando as suas promessas. A grande espera acabou. Como não ser feliz? Para realizar o seu plano, Deus “olhou a humildade da sua serva” (Lc 1,48). Ele se lembrou dos pequenos e esquecidos e deixou de lado os grandes e poderosos! Como não ser feliz?

No Círio deste ano, nos deixaremos animar pela fé e pelo alegre cântico de Maria e refletiremos sobre a Exortação Apostólica de papa Francisco: “A alegria do Evangelho”. Quantas vezes cantamos: não pode ser triste um coração que ama a Cristo, não pode ser triste um coração que ama a Deus”. É verdade, mas, mais ainda não pode ser triste quem acredita que Ele nos amou primeiro, do jeito como só Deus ama doando tudo de si mesmo porque Ele que é amor! (cf. 1Jo 4,10). A alegria de Maria deve ser também a alegria de todo cristão.

                                                        Dom Pedro José Conti, bispo de Macapá

Artigo dominical

O pão novo
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Certo dia um mendigo bateu à porta de uma pobre casa. Um homem bom e honesto lhe abriu e lhe deu por esmola um pão que estava na mesa da cozinha. Imediatamente chegou a mulher dele e, com raiva, disse-lhe:

– Não é possível! Você está dando, ao primeiro que passa, o pão que eu tinha reservado para o nosso cachorro!

O homem, então, chamou o mendigo de volta e lhe disse:

– Irmão, me perdoe! O pão que lhe dei, antes, era pão dormido… Era para o cachorro! O pão para você é este aqui. E lhe entregou um belo pão novo que a mulher havia apenas tirado do forno.

Um exemplo de caridade bem feita. Aquele homem deu ao pobre o mesmo pão da sua mesa; não lhe deu as sobras ou aquilo que não prestava mais. Com um simples gesto manifestou que o considerava igual a ele, como um irmão verdadeiro, com a mesma dignidade.

Sempre podemos entender a página do evangelho da multiplicação dos pães e dos peixes de muitas formas. O gesto de Jesus não foi somente uma resposta à necessidade imediata da fome daquele povo. Aquele fato extraordinário foi o anúncio de uma nova realidade que, se acreditarmos, nós também podemos fazer acontecer, um sinal de esperança para o presente e o futuro.

O que nos chama a atenção é sempre a exiguidade do início – cinco pães e dois peixes – e a quantidade das sobras: doze cestos de pedaços de pão. O nosso medo é o mesmo dos apóstolos que achavam impossível poder saciar a fome de tamanha quantidade de pessoas. Não queriam passar por charlatães. Foi falta de fé, sem dúvida, mas também foi a consciência de sua pobreza não só material, mas também de criatividade e confiança. Em geral, todos nós preferimos o pouco seguro, que resolve o nosso problema individual, que a partilha e a solidariedade para que todos, juntos, consigamos o necessário na construção da fraternidade e da paz.

A multiplicação dos pães e dos peixes não é só um gesto de caridade bem feita por Jesus, é um caminho aberto para aprender que as grandes questões da humanidade como a fome, o direito à vida, a liberdade política e religiosa, a violência e a sobrevivência do próprio planeta Terra, somente poderão ser resolvidas se construirmos laços de comunhão e de respeito à dignidade e aos direitos de todos. Jesus, como sempre, não dá uma receita já pronta, dá o exemplo. Precisamos aprender com ele. Isso não significa que este projeto de fraternidade seja algo fácil e imediato.

O caminho é longo e cheio de obstáculos. No entanto, desistir com a desculpa da impossibilidade, significa admitir que não existe remédio para o egoísmo das nações, dos grupos de interesse e dos indivíduos que têm o poder econômico capaz de manipular as riquezas do planeta. Nesse sentido, talvez não exista e nunca existirá um modelo perfeito e acabado de organização política e social em condição de resolver todas as questões, mas, fechar os olhos e o coração para não ouvir o grito dos pobres, dos excluídos, dos esquecidos, não somente não é uma resposta, é um escândalo vergonhoso de indiferença e cinismo.

O gesto de Jesus interpela, sem dúvidas, todo ser humano que tenha consciência e boa vontade, mas questiona, sobretudo, os cristãos, ou seja, aqueles que se declaram seguidores do Mestre. Cabe a nós, cristãos, sermos mais ousados na fraternidade e na partilha, na busca de soluções mais justas e solidárias aos sofrimentos que atingem, ainda hoje, milhões de seres humanos.

Neste domingo, o primeiro do mês vocacional, lembramos os padres. Eles são chamados a multiplicar e repartir o pão da Palavra e o pão da Eucaristia para que todos nós aprendamos a repartir também o pão das mesas, do trabalho, dos recursos necessários para a sobrevivência, o crescimento e a paz de todos. Todo domingo os cristãos são chamados a confrontar-se com o amor total de Jesus, são convidados a tomar a sério as suas palavras e o seu exemplo.

Rezemos para que os padres sejam os primeiros a acreditar nas possibilidades infinitas do amor.

Artigo dominical

A cama do monge
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Um terrível bandido assaltava as caravanas que viajavam da Pérsia para a Palestina. Em poucos anos, havia juntado uma enorme fortuna, mas nunca ficava satisfeito. Certo dia, em suas andanças, encontrou um vilarejo de míseras choupanas que não conhecia. O lugar era habitado por monges que, ao perceber sua chegada, tinham fugido. O bandido entrou naquelas pobres moradas e roubou o que podia: um livro, uma ânfora, um crucifixo, uma veste. Numa das cabanas, porém, não encontrou absolutamente nada, tinha somente uma tábua que devia servir de cama para o morador. Ficou tão comovido com tamanha pobreza que decidiu premiar, de alguma forma, o desconhecido morador. Mandou colocar suntuosas cortinas, deixou um vasilhame precioso e enfeitou o lugar com adornos de ouro e prata. Depois, prometeu a si mesmo que voltaria para ver o que o sortudo morador faria com aqueles tesouros. Voltou depois de alguns meses disfarçado de viandante. Ao entrar, o homem falou:

– Ouvi dizer que um generoso bandido te encheu de riquezas, mas não estou vendo nada em tua casa?

– É verdade, estrangeiro, metade dos bens os doei aos pobres e metade à igreja. Contudo ficarei agradecido para sempre àquele bandido, porque me deixou um presente muito mais valioso: ajudou-me a entender que podia renunciar também à cama. Naquele momento, o bandido reparou que o monge estava mesmo deitado no chão. O seu coração de pedra estremeceu, caiu de joelhos e começou a chorar no colo do pobre velho. Este compreendeu tudo e ouvindo dele que estava disposto a renunciar a todos os seus bens, disse-lhe:

– Não a todos, mas à metade. Estás demais acostumado a eles, assim como eu estava agarrado à minha cama. Chegará o dia no qual te libertarás da coisa à qual mais estás ligado: a ti mesmo. Naquele dia, se quiseres, poderás vir aqui comigo. Vou te acolher como a um filho.

As primeiras duas parábolas do evangelho deste domingo são semelhantes. Em ambos os casos, o homem que encontra o tesouro no campo e o mercador de pérolas vendem tudo o que têm para comprar aquele campo e aquela pérola. Como sempre, Jesus não faz a teoria do Reino e, também, não afirma simplesmente que este Reino vale mais de que tudo o resto. O compara com a história dos dois homens que não têm receio de trocar tudo o que possuem com aquele bem que eles acreditam valer muito mais do que deixaram. Este bem tão precioso – o tesouro e a pérola – é o próprio Reino de Deus. Afinal, é Deus mesmo.

Mas, por que Jesus fala em vender e comprar? Será que o Reino é uma das tantas mercadorias que circulam pelo mundo e a elas pode ser assemelhado? Com certeza, não, mas a parábola ajuda a entender a dinâmica do Reino que acompanha a nossa própria vida. Vivemos de trocas e sempre esperamos ganhar alguma coisa. Ao menos, um pouco de satisfação, de prazer, de gratidão. Os pais criam os filhos e esperam que um dia serão recompensados pelos sacrifícios e a generosidade. Os jovens estudam, buscam um trabalho, porque sonham uma vida melhor, almejam a felicidade. Ninguém inicia um empreendimento já sabendo que irá à falência; se investe, é para ganhar, nunca para perder. Nada de mais comum: somos todos, mais ou menos, interesseiros. No entanto, para ganhar o Reino, que sempre será um dom de Deus, como a sorte de ter encontrado o tesouro ou a pérola na parábola, precisa deixar muito, talvez, tudo. Somente quem consegue se libertar de tantas outras “coisas”, menos preciosas, consegue desfrutar do Reino.

Jesus nos ensina a procurar o que vale mais. Em qualquer negócio, precisa escolher e arriscar. Não é coisa para fracos e indecisos, para medrosos e acomodados. Participar do Reino significa reencontrar o sentido da vida. O que hoje parece uma perda, acreditemos, amanhã será um ganho. Poderemos usar dos bens matérias sem nos tornar escravos deles. Poderemos gastar os nossos dons para fazer o bem, para amar e defender os valores que dignificam a nossa humanidade, senhores dos nossos sentimentos e decisões. A busca do Reino liberta, nunca aprisiona. Torna-nos grandes porque amigos de Deus, nunca homens mesquinhos.

O bandido da história entendeu que o paupérrimo monge era mais rico do que ele. Claro, não pelo dinheiro, mas pela liberdade. Podemos desconfiar disso, mas a busca deve continuar. O verdadeiro tesouro está escondido, mas sempre podemos encontrá-lo. Coragem!

Artigo dominical

A semeadura
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

– O que devo fazer? – perguntou o discípulo ao mestre.
-Vai, semeia um ato de bondade, colherás um costume.

Depois de algum tempo o aluno voltou.

– E agora o que devo fazer?
-Vai, semeia um costume, colherás um caráter.

Mais uma vez, depois de mais um tempo, o jovem voltou:

– O que resta ainda para fazer? – perguntou.
– Semeia o caráter – respondeu o mestre – colherás um destino!

A imagem da semente e dos frutos que dela nascem é, com certeza, uma das mais belas e compreensíveis comparações que podemos utilizar para entender, muito além dos processos da natureza, a própria realidade da vida humana. É fácil dizer que somos “eternos aprendizes”, no entanto, nem sempre sabemos aproveitar das lições da vida. O que fica mesmo dos conselhos, dos exemplos, bons e maus, que recebemos desde a nossa infância? Muito? Pouco? Nada? Quando, porém, temos a sabedoria de aprender com erros e caídas, como também com conquistas e descobertas, tudo isso entra a fazer parte da nossa vida, se torna um “patrimônio”, a nossa identidade de homens e mulheres em constante construção. Se a nossa vida não fosse esta sucessão de acertos e desacertos, avanços e recuos, seria, provavelmente, uma grande chatice; assim ensinam os mestres do pensamento humano. Em razão de tudo isso, é importante, vez por outra, parar para ver se o que foi semeado de conhecimento, convivência, encontros e desencontros, produziu frutos cada vez melhores. Crescemos, humanamente falando, ou não? Construímos saber, convicções, caráter? Ou vivemos à mercê das modas, dos aplausos, do brilho de outros?

Com o evangelho deste domingo, começamos a leitura do capítulo 13 do evangelho de Mateus, conhecido como o “discurso em parábolas”. O início é, ele mesmo, uma parábola que abre o horizonte das sucessivas. Simplesmente porque explica a missão de Jesus, semeador da palavra, enviado para revelar os “mistérios” e a dinâmica do Reino. Com efeito, as parábolas sucessivas começam com as palavras: o Reino do céu é semelhante a… Assim podemos dizer que o Reino de Deus, representado ao vivo pelo próprio Jesus, é ao mesmo tempo o anúncio, porque ele, o Senhor, deve ser acolhido como a novidade transformadora, mas é, também, a semente que, se encontrar um terreno generoso e fecundo, produz, aos poucos, os seus frutos. Por isso, declara Jesus, são felizes aqueles que têm olhos para perceber a presença do Reino e ouvidos para escutar a palavra semeada. Muitos profetas e justos desejaram ver e ouvir o que os discípulos estão vendo e ouvindo, mas não foi possível. Um convite claro a não desperdiçar a semente agora semeada com tamanha visibilidade e fartura.

Aquelas palavras ecoam também hoje para nós cristãos e para todas as pessoas de boa vontade. Qualquer ser humano pode ser o bom terreno para produzir frutos de amor, de justiça e de paz em abundância, na condição de não se deixar distrair, nesta obra, por outras propostas aparentemente mais atrativas, mas, afinal, sufocantes e capazes de ressecar qualquer coração. As parábolas sucessivas, neste mesmo capítulo, irão explicar que, na construção do Reino, precisará ter paciência, perseverança e muita coragem para escolher o que vale mais e deixar o que vale menos. No entanto o objetivo continua aquele de produzir frutos bons, porque este é o sinal evidente que a semente também foi de primeira qualidade. Vejam a responsabilidade e a missão que temos como cristãos: não somente devemos ser o bom terreno onde a semente produz cem, sessenta, trinta por um, mas também, provar, com isso, a força e o valor da Palavra semeada.

Infelizmente, a escassez de frutos deixa a suspeita da má qualidade daquilo que foi semeado. Mais uma vez, cabe a nós, em primeiro lugar, estarmos convencidos da bondade da proposta do Reino e acolhê-la com alegria, entusiasmo e disponibilidade. Assim, a pequena semente crescerá viçosa. Tudo começa com um ato de bondade, se tornará um costume, mais tarde será um caráter, enfim construirá um destino, uma meta: o Reino de Deus.

Papa Francisco reconhece virtudes heroicas de Marcello Candia

France Presse

O papa Francisco assinou nesta quarta-feira (9/7) o decreto que reconhece as virtudes heroicas do italiano laico Marcello Candia (1916-1983), fundador do hospital de Macapá, no rio Amazonas.

Conhecido como o “Doutor Schweitzer do Amazonas”, Candia mudou-se nos anos 60 para uma das zonas mais remotas do Brasil, onde ajudou doentes, principalmente, os leprosos, e fundou escolas, seminários e associações de voluntariado.

Proveniente de uma família de ricos industriais do norte da Itália, formado em Química e Biologia, Candia fez parte da resistência contra o fascismo, ajudou judeus e refugiados italianos e, através do arcebispo de Milão, o futuro papa Paulo VI, conheceu o padre Aristide Pirovano, com quem iniciou sua experiência brasileira.

Em 1991, o cardeal Carlo Maria Martini abriu o processo para sua beatificação, o que permitiu ao papa Francisco decretar, 23 anos depois, suas virtudes heroicas, primeiro passo para chegar a ser santificado.