Poucas novidades e velhas canalhices

Poucas novidades e velhas canalhices
Elton Tavares

Há um novo bar restaurante na cidade. Também a velha mania de parar por qualquer evento diferente, tipo coisa do interior. Mas até aí tudo bem, faz parte da fuga por coisas novas.

Também há muita insatisfação, descrédito e desejo de mudança. Também jovens ávidos por uma chance, um emprego e velhos professores aflitos pela retirada de benefício salarial ou os novos, pela falta de um reajuste justo.

Há crianças se prostituindo e velhos coronéis ainda no poder. Há gente morrendo nos hospitais e alguns ainda dizem que tudo está no seu lugar.

Há caos, desordem e desonestidade à rodo. Há má vontade…

Há sonhos engavetados e paixões idiotas. Há muita grana a ser gasta com a massa de manobra por interesses obscuros. Há medo!

Há pessoas assistindo a tudo sem fazer nada. Uns por egoísmo, outros por conveniência. Há ameaças, exonerações, chantagens e acordos.

Há violência. E de toda forma. Corpórea e moral. Há assédio, mas todos chamam de “Lei do mais forte”.

Há casamentos, separações, mortes e nascimentos. Há loucos impetuosos e covardes acomodados. Há muita alienação e burrice colorida. Há canalhas demais!

Há muita beleza natural, muita gente do bem, tanto por fazer e amores (sur)reais. Mas há poucas novidades e velhas canalhices, mas todo mundo só pensa na porra do novo bar restaurante na cidade.

O Comício – Por Ruben Bemerguy

O COMÍCIO
Ruben Bemerguy

A experiência em ser candidato estava sendo um exercício muito interessante para mim. Me sentia de verdade um pouco menos ignorante quanto a imprescindibilidade da ternura, quanto a intensidade de um beijo, quanto a necessidade suprema de chorar. Eu estava enriquecendo na sinceridade das ruas.
Ontem à noite, entretanto, quando sai do escritório, minha candidatura estremeceu, outra vez. Não pensei em abandonar a candidatura, abandonar o Wagner ou me abandonar, mas conclui que não tenho a mais remota chance de ser eleito. Nem o Wagner, nem eu.
É que, como disse, ontem à noite quando sai de meu pequeno escritório de advocacia, deparei com um imenso engarrafamento. Imaginei fosse um acidente. Um desastre. Um corpo no asfalto até. Sou dramático em horas como essas. Encarno a dor do outro instantaneamente. Eu me conheço e, por incrível que pareça, sinto saudade dos que se envolvem em circunstâncias fúnebres, ainda que sequer os tenha conhecido. É estranho, mas sou assim. O que se há de fazer?
Felizmente, não era nada disso.
Eram só automóveis nervosos, muitos ônibus em filas, um palco montado no meio da rua daquela noite quase escura. Quase escura, não fossem um conjunto de lâmpadas instaladas no céu daquela rua quase escura.
Um mundaréu de gente, também tinha. Um animador em gritos de louvor estremecia o palco montado no meio da rua daquela noite quase escura.
Uns poucos homens vestidos para festa. A imensa maioria dos homens vestidos de fome. Os que estavam vestidos para festa andavam apressados, falavam apressados, acenavam apressados, riam apressados. Toda aquela pressa se justificava, porque o destino dos homens vestidos para festa era preciso e único: o palco montado no meio da rua daquela noite quase escura.
Os vestidos de fome, curiosamente não dedicavam os olhos àqueles homens vestidos para festa. Eles preferiam dedicar atenção à noite quase escura. E a noite quase escura dedicava atenção aos homens vestidos de fome. Ambos os olhos – da noite quase escura e dos homens vestidos de fome – tinham a forma e o cheiro de um caroço de açaí no pé.
Indiferente à noite quase escura e aos homens vestidos de fome, os homens vestidos para festa entronizavam no palco montado no meio da rua da noite quase escura conduzidos por outros homens vestidos para festa. O animador, em gritos de exaltação, fazia sua parte e gabava muito os homens vestidos para festa.
Heróis, pelo menos para aquele animador de palco montado na rua da noite quase escura, eram os homens vestidos para festa.
Fogos de artifício, aos montes, rompiam o espaço daquela noite quase escura todas às vezes em que o animador gabava os homens vestidos para festa.
Eu não custei a perceber que aqueles eram os mais verdadeiros fogos de artifício já vistos por mim. O nome agora fazia jus ao seu mais exato significado: Artifício.
Fogos de artifício preparados sutilmente, astutamente, em química impiedosa, para fazer com que os homens vestidos de fome permaneçam a vestir os homens vestidos para festa sem que aqueles – os vestidos de fome – percebam que é exatamente a fome deles que veste, dia a dia, os homens vestidos para festa.
Aos ruídos que vinham do palco, os homens vestidos de fome respondiam com outros ruídos que me pareciam combinados e vigiados. Os homens vestidos de fome encanavam também com maltrapilhas bandeiras atadas nas mãos na noite quase escura.
Depois de repetidas doses de homens vestidos para festa, o animador do palco montado na noite quase escura sentenciou o final do espetáculo.
A noite quase escura se despediu dos homens vestidos de fome e os homens vestidos de fome se despediram daquela noite quase escura.
Os homens vestidos de fome enfileiraram-se diante de uma fila de ônibus em fila Indiana levando de volta só o que trouxeram para aquela noite quase escura: os olhos em forma e cheiro de um caroço de açaí no pé.
Os homens vestidos para festa também se foram em vistosos automóveis de festa.
Eu fiquei lá. Com um imenso nó na garganta e profundamente mais ignorante quanto a imprescindibilidade da ternura, quanto a intensidade de um beijo, quanto a necessidade suprema de chorar.
Esbarrei em mim os olhos da noite quase escura e dos homens vestidos de fome – olhos de caroço de açaí no pé – e tropecei na minha inadvertida candidatura a suplente do Wagner.
Me virei para a noite quase escura e sem rivalizar com a saudade de mim, sem rivalizar também com o meu modo de ver a vida dos homens vestidos de fome, disse para a noite quase escura: “Se para conquistar um voto for necessário eu me vestir para festa. Se for necessário andar apressado, acenar apressado, rir apressado. Se for necessário montar um palco. Se for necessário um animador que me gabe. Se for preciso ônibus em filas. Se for preciso o artifício e seus fogos. Se for preciso artificializar um mundaréu de gente, eu prefiro inexistir”.
Se para ser candidato for preciso desolhar a noite quase escura e desolhar os homens vestidos de fome, eu prefiro ser o não candidato.

As praças dos velhos tempos

As praças dos velhos tempos
Fernando Canto

Creio que todos nós nos lembramos de algum logradouro público da cidade como um espaço que marcou determinado momento de nossas vidas. E, claro, nada como um passeio nas praças de Macapá para fazer vir à tona os clipes nos quais fomos felizes protagonistas ou solitários incompreendidos frente às decepções e vicissitudes que a vida traz, inexoravelmente.

Quando Macapá era menor um passeio à praça significava um caminho para a conquista. Depois da missa ou depois da matinê do cinema, um toque na mão da namoradinha, um ousado “tocha” na despedida era “a glória” dos enamorados, era o sonho realizado sob o embalo da canção romântica interpretada por Ronnie Von que tanto sucesso fez na década de setenta. Alheios aos acontecimentos políticos, nem dávamos conta das transformações que se operavam no país naqueles tempos. O importante era a afirmação como homem e a curtição daquilo que chegava a nós de forma inócua, como os modismos americanos: a calça Lee, os cabelos longos e o som do Credence Revival de do Jonnhy Rivers,  (Leia mais) Continue lendo

Chuva-Matina

CHUVA-MATINA
Alcy Araújo (1924-1989)

De repente o azul do céu ficou cinzento e o sol que bailava em luz na manhã tomou a inesperada resolução de se esconder por trás do silêncio que se fez.
Um relâmpago fotografou o momento de espanto e um trovão rasurou a manhã que ficou pesada como chumbo. Então a chuva começou a cair sobre a cidade, comprimindo os pássaros contra as árvores molhadas e as crianças nas vidraças das janelas.
Depois a chuva começou a entrar no meu quarto, gotejar no meu poema, molhar o meu relógio cansado de marcar as horas lúcidas do meu imenso amor, refletido em lágrimas no espelho defronte e insone.
Poderia contar aos que ouvem meu poema nascendo, que muitas dores embarcaram inutilmente nos barquinhos de papel para naufragarem sem remissão logo adiante, na primeira curva do rio que a chuva inaugurou diante de minha janela. Mas não conto porque todas as tristezas voltaram a habitar o meu dia e a minha noite e o meu poema.
Estou visivelmente crucificado à minha dor. Mesmo porque não tenho uma rosa vermelha para mandar à Bem-Amada que chora a minha ausência e a infelicidade de haver me amado numa noite em que a música vinha do interior dos saxofones e nos tornou comovidos e solitários. Lembro que não conhecemos ninguém fora de nós mesmos, quando promovíamos a gestação da saudade.
Sei agora que ando de pés nus, pisando lágrimas cristalizadas que ferem como cactos. Mas longe, onde a esperança se esconde, a felicidade prometida sorri nos olhos daquela que tem as mãos cheias de afeto.
E a chuva continua lavando desencantos…
Não tenho, porém, nenhuma rosa e nenhum pássaro pousado nos meus ombros nesta manhã cinzenta. Quem estiver ouvindo o meu poema nascendo sabe que é assim e que me falta um gesto de amor que ficou na saudade e que pode voltar a qualquer momento, para minha eternidade absoluta. Digo isto porque o céu está ficando azul novamente, neste instante em que enxugo uma lágrima no lenço que guarda a lembrança das lágrimas que a Bem-Amada chorou, numa desesperada hora de amor.

O mendigo da estrada

O mendigo da estrada
Dom Pedro José Conti –Bispo de Macapá

Um rei não tinha filhos. Mandou mensageiros para espalhar avisos. Os jovens aspirantes ao trono deviam ter duas condições: amar a Deus e aos seres humanos de todas as classes e raças. Aqueles que se achassem qualificados deviam apresentar-se para uma entrevista com o rei. Um jovem leu o aviso e pensou que Continue lendo

O vendedor de bombons

O vendedor de bombons
Cléo Farias de Araújo

Aproveitando férias, aceitei o convite de dois vitoriosos atletas do nosso Santana Esporte Clube, Sergio Carlos e Jorge Filho, para irmos caniçar, na fazenda do amigo de um deles.
Em raro dia de sol, pegamos a estrada cedinho e, de posse do material necessário à “empelêita”, fomos conversando e curtindo músicas variadas, do repertório do pesquisador Sérgio, também conhecido por Nunes. A cada música que tocava, fazíamos a associação dela, com alguma etapa de nossas vidas e/ou com algum fato ocorrido em nossa cidade.
Por exemplo: quando tocou “Staying Alive”, do Bee Gees, recordamos das tertúlias nas sedes do Trem, Ipiranga, E. C. Macapá, Amapá Clube e Círculo Militar, onde cada um queria “se apresentar” mais que o outro, a fim de significar no coração das cocotas, para, quando tocasse uma música lenta, a lebre já estivesse no papo.
A certa altura da viagem, ao tocar um bolero de Anísio Silva, um dos integrantes da equipe de pesca, fez alusão ao Merengue. Porém, outro participante declarou:
—Ei, isso também tocava nos seguintes lugares: Hollywood, Juçarão, Curral das éguas, Julinha, Suerda, Só Marisco, Nova Brasília, Vico, Salão Paulino (que depois, virou Salão Castelo), Cornélio, sede do América, Nacional, 13 de setembro, União, Salão do Catabil, Casa Amarela e outras mais.
Nisso, me manifesto:
_ Qual a tua idade, parceiro? Porque tô observando que nem todos esses lugares funcionaram na mesma época.
_ Eu sei-disse ele. – Mas, desde gito, eu frequentei essas paragens.
-Mas…como?- Pergunto eu.
_Quando criança, eu vendia bombons, na porta dessas casas de diversão. Quando cresci, matei minha curiosidade em saber o que era que tinha lá dentro, onde os adultos entravam sorrindo e saíam cansados, mas alegres.
_ É…..- disse eu.- Com essa criatividade, ninguém vai pegar mais peixes que tu, nessa pescaria.
E foi assim: juntando toda a produção dos demais componentes da equipe, não chegamos à quantidade que nosso vendedor de bombons conseguiu tirar da água.

Borboletas e coelhos

Borboletas e coelhos
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Dois jovens foram ao rio para pescar. Um deles vendo uma borboleta voando, largou a vara e saiu atrás dela. Quando voltou, de mãos vazias, viu que o amigo tinha pescado um peixe muito grande. Pouco depois, novamente, o jovem se levantou e correu atrás de um coelho que estava ali por perto, mas não conseguiu alcançá-lo. Quando voltou, viu que o colega tinha pego outro lindo peixe e disse:

 – Por que eu não consigo pegar nem um peixinho?

O outro respondeu: Se deves pescar, pesca! Precisas decidir o que queres pegar: a borboleta, o coelho ou o peixe? Continue lendo

Laguinho do samba e do amor

Laguinho do samba e do amor*
Por João Silva

No tempo em que não havia Câmara Municipal, políticos vaidosos e assessores ruins,daqueles que não assessoram coisa alguma, o macapaense mesmo ia usando a imaginação para dizer onde morava, onde trabalhava, onde se divertia, onde ficava isso, onde ficava aquilo.
Ruas, becos, animal de estimação, praças, bairros, morros, salão de festa, mangueira, baixada, esquina, bar e até baiúca, nada escapava da língua do povo que ia dando nome a cada pedacinho de Macapá, quase sempre homenageando moradores antigos ou figuras populares…Baixada da Maria Mucura, Burro do Pitaíca, Beco do Abieiro, Mangueira do João Assis, Igarapé das Mulheres, Bar do Barrigudo, Bairro Alto, Morro do Sapo, só para lembrar.
Alcy Araújo falava muito no Laguinho do samba e do amor. Uma noite de boemia tinha que começar no Berro d´Água, bar que ficava no canto do antigo INPS, em uma das portas de entrada do bairro, digamos. O Poeta do Cais tinha uma queda pelo Laguinho, achava o nome original, o povo alegre e amigo – ainda bem que Laguinho permaneceu Laguinho, mas depois Continue lendo

Uma crônica de Milton Sapiranga

Seu Antônio, brasileiro, sim senhor!
Milton Sapiranga Barbosa

O bairro da Favela foi pródigo de figuras inesquecíveis. Tinha a Tia Guilherma, que  os mais velhos, para meter medo na molecada diziam que se transformava em uma grande porca  para comer criancinhas choronas e desobedientes. Seu Nestor, apelidado de “pardal”, em referência ao personagem de histórias em quadrinhos que vivia  inventando. Tinha o Licatéro, Kitut, Eleuzípio Bem Bem e o seu Raimundão “paraquedista”, os dois últimos  já homenageados em crônicas anteriores.

Hoje quero falar do Seu Antônio, que por muitos anos trabalhou na cozinha do Hospital Geral de Macapá, tendo como companheiros, seu Alicio, Holanda, Acapú e meu tio, por parte de pai, conhecido como Manoel Delapada (não me perguntem porque Delapada, pois até hoje não sei) .

Naquele tempo dava gosto provar a comida  feita  pelas mãos desses cinco cozinheiros, que se vivos fossem,  hoje  seriam chamados de chefs.

Seu Antônio, quando de folga, gostava de tomar  umas  doses da branquinha  e  era então que revelava duas qualidades que nunca vi, até hoje, em outro ser vivente.

Tão logo saia do Bar Popular ou da Mercearia do  Cacú, arrancava uma folha de mangueira, dobrava-a ao meio e saia tocando, com uma  nitidez incrível, o Hino Nacional Brasileiro,  daí ter ganho o apelido de Antônio Brasileiro. Essa era uma de suas habilidades, a outra, que achava ser a mais espetacular, era o equilíbrio que demonstrava quando  andava sobre a calçada de meio fio, cuja largura não alcançava  um palmo. Sempre tocando o Hino Nacional na folhinha de mangueira, ele andava  um quarteirão de avenida  sem cair, mesmo estando mais pra lá do que pra cá. Só quando pisava no chão batido é que dava umas cambaleadas, demonstrando que havia tomado umas e outras.

Sempre que ele passava tocando o hino nacional  usando como instrumento uma folha  de mangueira e andando na calçada de meio fio sem cair, era seguido e aplaudido  por uma leva de moleques.

Crianças e adultos adoravam seu Antônio, brasileiro, sim senhor, pois era educado, respeitador, não dizia palavrões e nem  tirava  gracinhas com as mulheres. Seu Antônio, viveu por muitos anos em Macapá, mudando-se depois  com a família  para o Rio de Janeiro. Seu Antônio Brasileiro já nos deixou, mas ainda vive entre minhas boas lembranças da  infância feliz, vivida no meu querido Bairro da Favela.