Recital de poemas eróticos

marypaesNa quinta-feira, 25/9, a partir das 21h, o República Bar Vintage, em Macapá, traz para o palco a poetisa Mary Paes, com um repertório recheado de “poemas eróticos”, de sua autoria, no recital Previsão do tempo: quente e úmido ao anoitecer. Será a primeira vez que a artista se arrisca numa apresentação solo abordando o erotismo.

A ideia do recital nasceu a partir do convite do proprietário do espaço, Ronaldo Costa, empresário amapaense com visão cultural, que se estende para além do segmento musical, privilegiando artistas de outros segmentos, como a poesia e o teatro. A produção do espetáculo é conduzida pelo Tatamirô Grupo de Poesia, com a colaboração da artista visual Aline Pacheco.

Mary Paes espera que o público receba bem a proposta, por se tratar de algo ainda não experimentado por ela, em outros eventos literários da capital.  “Estou bastante ansiosa, e desde já agradeço o apoio dos amigos para a apresentação. Além de algumas surpresas reservadas para o público, a noite será, no mínimo, bastante quente e úmida”, arremata a poetisa.

(Texto: assessoria de comunicação de Mary Paes)

Eu não vou perturbar a paz

SEU NÃO VOU PERTURBAR A PAZ
Manoel de Barros

De tarde um homem tem esperanças.
Está sozinho, possui um banco.
De tarde um homem sorri.
Se eu me sentasse a seu lado
saberia de seus mistérios
ouviria até sua respiração leve.
Se eu me sentasse a seu lado
descobriria o sinistro
ou doce alento da vida
que move suas pernas e braços.

Mas, ah! eu não vou perturbar
a paz que ele depôs
na praça, quieto.

Chá da tarde

SENTIMENTAL
Carlos Drummond

Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.
Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!
– Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!
Eu estava sonhando…
E há em todas as consciências um cartaz amarelo:
“Neste país é proibido sonhar.”

Boa tarde!

“Haverá ainda, no mundo, coisas tão simples e tão puras como
a água bebida na concha das mãos?”
(Mario Quintana)

Hoje tem poesia no Araxá

Hoje, a partir das 20h no Norte das Águas (Araxá) tem encontro poético com a participação dos consagrados poetas paraenses Juracy Siqueira e Walcyr Monteiro e o Movimento Poesia na Boca da Noite.
Para entrar logo no clima, leia  a convocação, em forma de poema, feita pelo Juracy.

CONVOCAÇÃO!
Juracy Siqueira

Em nome da poesia,
da amizade, da alegria,
da palavra e da emoção,
faço esta convocação
para se fazer presente
logo após o sol poente
às margens do Rio-mar
para a poesia exaltar:
Convoco Fernando Canto,
armado de cetro e manto,
chamo Decleoma Pereira,
Jurandir, Jaci Siqueira,
convoco o velho marujo
dito Obdias Araújo,
sumano Walcyr Monteiro
junto ao boto mandingueiro;
convoco Waldinett Torres
com a Rama Dê-Las Torres,
que venham para a função
o Raule e a Cris Assunção!
E para trocar de rima,
a Elida Almeida Lima
para na festa en/cantar.
Sem esquecer de chamar,
com seu verbo de brilhante,
Alcinéa Cavalcante;
também chamo, sem esparro
o  Paulo Tarso Barros.
Que venha Aline Monteiro,
Júlia, Thiago Soeiro,
Áquila e Asaf Assunção,
Alice, Aiury… E quem não
convoquei, também se afoite,
“Poesia na boca da noite”
nunca fez mal a ninguém.
E por fim, por testemunha,
a Maria Lídia Cunha
e toda a turma do bem!

Chá da tarde

Os Estatutos do Homem
Thiago de Mello

Artigo I 
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II 
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo. 

Artigo III  
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança. 

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu. 

        Parágrafo único:  
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino. 

Artigo V  
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa. 

Artigo VI  
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora. 

Artigo VII  
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo. 

Artigo VIII   
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor. 

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura. 

Artigo X  
Fica permitido a qualquer  pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco. 

Artigo XI 
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã. 

Artigo XII   
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela. 

        Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor. 

Artigo XIII 
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou. 

Artigo Final.   
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Um poema de Romério Rômulo

Bandeira
Romério Rômulo

já decidido, bandeira
vou contigo pra pasárgada

se o rei me apagar
me escondo na tua pele
me amarro no teu abraço
e aonde fores, irei

invento que fui amante
da vênus de botticelli
e que a vila de ouro preto
é um raio do meu olho
aí o rei se convence
de que sou homem fatal

invento dos meus amores
dos olhares de clarice
de tantas outras madonas
do aço que já comi

e aí quem vai dizer
que sou isso pelo avesso?
quem vai olhar os meus trapos
e falar do puro medo
das entranhas habitadas
no meu corpo de miséria?

falo dos panos de seda
do meu circo sem igual
onde 15 malabares
no espanto de uma corda
fazem toda a travessia

invento que namorei
a raínha de sabá
e suas tropas andaram
no meu cabelo de lona

te garantizo, bandeira
o rei não vai resistir

quem sabe que as harmonias
de villa-lobos sou eu?