Perguntas a Papai Noel

Perguntas a Papai Noel
Arthur Nery Marinho

Quando em criança o sapato
que tinha pus à janela
lhe esperando. Noutro dia
nem sapato e nem chinela.

Quando em rapaz lhe pedi
para me dar meu amor.
Aqui estou sozinho e triste
fazendo versos de dor.

Que lhe fiz, que não me olha?
que lhe fiz, que não me escuta?
Responda, Papai Noel!
Papai Noel filho da puta!
(Do livro “Sermão de Mágoas”, 1993 – Jornalista, poeta e músico, Arthur Nery Marinho nasceu em 27/09/1923 em Chaves-PA. Veio para o Amapá em 1946 e aqui faleceu em 24/03/2003)

Visita indesejada

Visita indesejada

Tem uma saudade batendo na minha porta.
Não vou abrir.
Conheço bem essa figura.
Entra
se aboleta no sofá
e não quer mais ir embora.
Abusada
invade a cozinha
adentra o quarto
deita na cama.
Não vou abrir a porta, não.
Não estou pra esse tipo de visita.
Gosto daquela saudade
que chega de mansinho
trazendo lembranças perfumadas,
um verso e um riso
toma uma cafezinho
e vai embora.
(Alcinéa Cavalcante)

Bom dia com poesia

Igarapés
José Pastana

Seu moço, cuidado com o revolto do rio
A cobra Norato habita os igarapés
Pode engolir os sonhos dos ribeirinhos
O Curupira é o protetor das florestas
Dizem que ele é impiedoso
Com quem devasta a natureza
Presta atenção ainda, seu moço, no Boto!
Ele pode engravidar a moça bonita
Porque hoje é noite de lua cheia
E ela faz parte do nosso imaginário.

(Extraído do livro Poemas e Um Amor, que será lançado nesta sexta-feira, 8, às 19h na Biblioteca Elcy Lacerda)

José Pastana lança nesta sexta-feira seu quarto livro de poemas

Poeta, professor, escritor, imortal da Academia Amapaense de Letras  e atual gerente da Biblioteca Elcy Lacerda, José Pastana lança nesta sexta-feira, 8, seu quarto livro de poesias. “Seus poemas soam como uma bela música aos nossos ouvidos”, diz a professora Mara Silvia Jucá Acácio, mestra em Linguística. E ressalta: “Em Poemas e Um Amor, Pastana traz à tona seu próprio mundo interior, traduzindo, brilhantemente, as sensações do seu eu-lírico”.
Para o  poeta paraense Rui do Carmo “navegar nas páginas de Pastana é mergulhar em um mundo de lirismo” Essa obra, diz Rui, é um buquê de belos versos bem trabalhados e construídos, sobre o estro das divinas criações.
“Vida e amor são os ingredientes primordiais nessa obra que conquistará até o mais duro coração”, assegura o professor de literatura José Leonardo Santos.

Recomendo a leitura da resenha literária de Poemas e Um Amor feita pelo renomado escritor, sociólogo e também imortal da Academia Amapaense de Letras Fernando Canto publicada  hoje no Blog De Rocha. Para ler clique aqui

Bom dia com poesia

Procura

Eu estava lá quando o sol
jogou sorrisos dourados no rio-mar.

Eu ainda estava lá
quando uma estrela riscou o céu
e um pescador apanhou uma estrela do mar.

Por testemunha tenho um bem-te-vi
que bem me viu
quando as andorinhas bailavam no ar.

Quis fundir ouro com prata,
estrela cadente com estrela do mar
e cantar um canto novo
para sair bailando contigo.
Mas
tu não estavas lá.
(Alcinéa Cavalcante)

Um poema de Isnard Lima para Alcy Araújo

AL.
Isnard Lima (1941-2002)

Tu, poeta,
deverias ser o jardineiro
que falta na praça
que amo como garoto
e odeio
como homem.

Plantarias rosas rubras
muito suaves e muito belas
para as moças
que ficam à tarde
na moldura
das janelas.

E nós teríamos
rosas vermelhas
para oferecer
à namorada ausente.

Aquela que ficou
na estrada
acenando amor.
(Do livro Rosas para a Madrugada, 1967 – Macapá-AP)

Isnard Lima e Alcy Araújo eram compadres.  Isnard Lima estaria completando hoje 78 de idade. Faleceu aos 61 anos em 2002. Alcy Araujo faleceu em abril de 1989 aos 65 anos.

Eu estava lá

Eu estava lá

Eu estava lá quando o sol
jogou sorrisos dourados no rio-mar.

Eu ainda estava lá
quando uma estrela riscou o céu
e um pescador apanhou uma estrela do mar.

Por testemunha tenho um bem-te-vi
que bem me viu
quando as andorinhas bailavam no ar.

Quis fundir ouro com prata,
estrela cadente com estrela do mar
e cantar um canto novo
para sair bailando contigo.

Mas, que pena!
Tu não estavas lá.
(Alcinéa Cavalcante)

Bilhetinho

Bilhetinho

Meu caro:
recebi tuas bem traçadas linhas.

Tua caligrafia é muito linda.
Porém, confesso, o que mais me encantou
foi o selo colado
no envelope “par avion”.

Arranquei-o com cuidado.
Ele agora faz parte da minha coleção.

Tua missiva eu guardei
naquela caixinha cor-de-rosa.

Prometo  responder
assim que tiver um tempinho.
(Alcinéa Cavalcante)

O Fim do Mundo

O Fim do Mundo

Quando disseram
que o mundo ia acabar
Tia Lila pegou seu terço
e pôs-se a rezar.

O dono da venda
dividiu toda a mercadoria
com seus funcionários
e distribuiu o dinheiro do caixa
para os mendigos.

A recatada dona Clotilde
jogou-se aos pés do marido
e implorando perdão
confessou que o tinha traído com o compadre.

Seu Joaquim, um santo homem,
ajoelhou-se no meio da rua
ergueu as mãos para o céu
e pediu perdão a Deus
pelos assassinatos que cometeu
como matador de aluguel.

No dia seguinte
o dono da venda pedia esmolas,
a recatada Clotilde, expulsa de casa,
foi morar num velho puteiro,
Seu Joaquim foi preso.

Só Tia Lila continuou do mesmo jeito.
De terço na mão continuou rezando
e entre uma oração e outra murmurava:
– É mesmo o fim do mundo
– Dona Clotilde, hein, quem diria?
– Seu Joaquim com aquela cara de santo, hein!
É o fim do mundo! É o fim do mundo!

(Alcinéa Cavalcante)