Artigo dominical

O médico ladrão
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Uma velha senhora doente dos olhos mandou chamar um médico. Ele foi atendê-la e, sempre que lhe aplicava um unguento, roubava alguma coisa da casa, já que ela estava de olhos fechados. Depois de tratá-la e de levar seus móveis, apresentou-lhe a conta. Como a velha não quis pagá-lo, ele abriu-lhe um processo. No tribunal, ela declarou que tinha se comprometido com ele a pagar desde que ele a curasse; ora, no momento, ela estava vendo bem menos que antes da cura: – Antes – disse ela – eu via todos os móveis de minha casa; agora não vejo mais nenhum.

Sempre simpáticas as antigas fábulas de Esopo. No caso, a senhora idosa acabou vendo melhor do que o médico pensava: percebeu que tinha sido roubada. A vista é um grande dom, mas não basta enxergar bem, é preciso compreender o que estamos vendo. É por isso que na frente da mesma realidade nem todos os que estão olhando enxergam a mesma coisa.

No segundo domingo de Páscoa, todo ano encontramos o evangelho de João que apresenta a primeira aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos reunidos e bem trancados em casa por medo dos judeus. Tomé não estava presente e não acreditou naquilo que os outros diziam ter visto. Oito dias depois, Jesus compareceu novamente e repreendeu o apóstolo incrédulo. Em resposta este fez abertamente a sua bela profissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus!”. Com certeza esta foi uma das primeiras expressões do “credo” da Igreja com referência a pessoa de Jesus, o crucificado-ressuscitado começando a chamá-lo, assim, de Senhor e Deus.

Sempre estamos prontos a ficar do lado do pobre Tomé, porque achamos que ele tinha todo o direito de conferir os sinais da paixão no corpo de Jesus para não ficar pensando que os outros pudessem ter visto errado. No entanto bem sabemos que nós nunca vamos poder repetir a mesma experiência; nós estamos exatamente na condição dos bem-aventurados que terão que acreditar não por uma visão pessoal, mas pelo testemunho dos outros, de quem “viu e acreditou” (cf. Jo 20,8). O segredo da história, portanto, está no testemunho. Podemos nos perguntar: Tomé não acreditou imediatamente mais pelo fato de não ter visto o Senhor Jesus na primeira vez ou mais pela atitude dos discípulos que continuavam trancados em casa? O nosso amigo tinha todo o direito de duvidar daquilo que os outros diziam, simplesmente, por continuar a vê-los ainda com tanto medo. Deve ter pensado que se tivesse sido verdade que Jesus estava vivo e tinha doado a eles o dom do Espírito Santo (cf. Jo 21,22) por que estavam guardando para si a Boa Notícia? O que estavam esperando para sair em missão? A prova, legítima, da dúvida de Tomé está na forma como o livro dos Atos dos Apóstolos nos conta a chegada do Espírito Santo no dia de Pentecostes. Naquele dia, portas e janelas foram escancaradas e os apóstolos saíram para pregar a absoluta novidade: aquele que foi crucificado estava vivo, tinha vencido a morte e, agora, Ele era o Senhor da Vida. O medo se foi. Por causa deste anúncio, eles foram caluniados, açoitados e até mortos. Pelo testemunho deles a fé em Jesus “Senhor e Deus” chegou até nós.

Quantas vezes, nos dias de hoje, perguntamo-nos: Por que é tão difícil crer e por que também dá tanto trabalho quebrar o gelo dos corações, atrair as pessoas, para que se deixem ajudar a encontrar Jesus, aquele que é capaz de comunicar vida, força e esperança a todos os que o procuram de coração sincero? A resposta ainda é e sempre será o nosso testemunho. A nossa fé deve ser corajosa, deve ser bem visível e inequívoco; deve ser comprovada pelas nossas obras, pela dedicação em transformar o mundo com o bem e o amor, pela defesa da justiça em favor dos pobres e dos pequenos.

A ausência de fé ao nosso redor é uma acusação contra nós. Pode ser que nos tenhamos apropriado de algo que não é somente nosso e que precisamos devolver. A velha senhora desmascarou o médico ladrão. Para acreditar, o mundo nos pede o testemunho da fé. Se está nos cobrando é porque percebe que lhe falta alguma coisa. Isso é bom.

Programação da Semana Santa na Catedral de São José

Quinta-Feira Santa – 28/03
19h – Lava pés e Adoração ao Santíssimo

Sexta-Feira Santa – 29/03
8h – Via Sacra
13h – Confissões
15h – Sermão das Sete Palavras, Liturgia da Paixão e Morte de Cristo e em seguida a Procissão com a imagem do Senhor Morto

Sábado Santo – 30/03
21h – Vigília Pascal

Domingo de Páscoa – 31/03
9h – Missa na Igreja Santo Antonio – rua Odilardo Silva com Mendonça Júnior
19h – Missa na Catedral São José

Papa recomenda que fiéis sigam exemplo de Cristo

Francisco recomenda que fiéis sigam exemplo de Cristo aprendendo a perdoar e a conviver com os pobres

Renata Giraldi*
Agência Brasil

Brasília – O papa Francisco fez hoje (27) a primeira audiência geral e lotou a Praça São Pedro, em frente à basílica de mesmo nome. Ele dedicou o sermão à catequese da Semana Santa. Depois da Páscoa, o ele disse que vai retomar as catequeses sobre o Ano da Fé, como fazia o papa emérito Bento XVI. Francisco destacou que a Semana Santa é o período para que os fiéis lembrem que é necessário seguir o exemplo de Jesus Cristo, aprendendo a perdoar e a conviver com os pobres e humildes.

“Mas o que significa viver a Semana Santa para nós?”, perguntou o papa. “É acompanhar Jesus no seu caminho rumo à cruz e à ressurreição. Em sua missão terrena, ele falou a todos, sem distinção, aos grandes e aos humildes, trouxe o perdão de Deus e sua misericórdia, ofereceu esperança; consolou e curou. Foi presença de amor.”

O papa reiterou que o exemplo de Cristo é válido para todos. “Que tudo isso tem a ver conosco? Significa que esta é também a minha, a tua, a nossa caminhada”, ressaltou. Francisco advertiu que não basta ir à igreja: “Não podemos nos contentar com uma oração, uma missa dominical distraída e não constante”.

O sermão foi feito em italiano, mas a síntese da catequese e da saudação foi lida por um tradutor. Em português, o responsável pela leitura foi o padre Bruno Lins. “Queridos peregrinos de língua portuguesa, particularmente, os grupos de jovens vindos de Portugal e do Brasil: sede bem-vindos. Desejo-vos uma Semana Santa abençoada, seguindo o Senhor com coragem e levando a quantos encontrarem o testemunho luminoso do seu amor”, disse.

*Com informações da rádio do Vaticano

Páscoa judaica

Na próxima terça-feira, 26, o Comitê Israelita do Amapá celebra o Pêssach. É uma festa muito importante para o povo judeu.
Abaixo publico artigo do presidente do Comitê Israelita do Amapá, Samuel Benchaya, explicando o que é o
Pêssach

Pêssach, a páscoa judaica
Samuel Benchaya

A Festa de Pêssach, festejada no dia 15 do mês de Nissan do calendário lunar judaico do ano de 5773, correspondente ao dia 26 de março de 2013 do calendário universal, comemora a libertação dos filhos de Israel da escravidão egípcia, cerca de 1290 a.c.

Mencionado nas Escrituras Sagradas, acontecimento histórico que se constituiu como um dos fundamentos principais por tradição da criação espiritual e da civilização do povo judeu.

Os antepassados judeus, escravizados sob o jugo do Egito, a beira da destruição total, foram salvos pelo Eterno, libertados e levados para o caminho para a Terra Prometida, após receberem a Torá no Monte de Sinai.

A libertação física ganhou conteúdo espiritual e o destino eterno do judaísmo, fato que exemplifica o significado na história da humanidade, a forma concreta da ideia de liberdade como prova e símbolo de independência para um povo.

A Festa de Pêssach, Festa da Liberdade, começa no dia 15 de Nissan e se prolonga por oito dias até entrarem no Mar Vermelho, quando, salvos, em terra firme, cantaram a Shirá, a canção de louvor a D´us.

Os judeus são proibidos de ingerir alimentos a base de fermento. Limpam-se as casas, para que não permaneça nenhum alimento fermentado (Chamêts), que simbolizam defeitos pessoais, altivez e orgulho; ocasião em que se faz exame de consciência dos atos e comportamentos, a erradicar da alma as más qualidades, o “fermento” que está dentro de si.

Matsá (Matsot), “pão da pobreza”, alimento que os antepassados judeus comeram na escravidão, lembrança da pressa com que saíram do Egito, nos momentos da libertação, quando não deu tempo para a massa fermentar, feita só de farinha e água.

A agenda do Papa

Vaticano – Menos de 48 horas depois de ser eleito, o papa Francisco tem agenda lotada até quarta-feira (20). O papa  recebe hoje (15) os cardeais, na Sala Clementina, no Palácio Apostólico, a residência oficial dos pontífices. Amanhã (16) ele concede a primeira entrevista coletiva, a exemplo de Bento XVI e João Paulo II, que morreu em 2005. A expectativa é que mais de 5 mil jornalistas participem da entrevista.

A segunda aparição pública do papa está programada para domingo (17), quando ele celebrará a Hora do Angelus, ao meio-dia, na Praça de São Pedro. A chamada Hora do Angelus é celebrada  pelos católicos com orações para lembrar o momento em que o anjo Gabriel anunciou à Virgem Maria a concepção de Cristo.

Na terça-feira (19), haverá a missa de inauguração do pontificado do papa Francisco. Na ocasião, ele estará paramentado – com as vestes de papa – e o sapato vermelho, além do anel do pescador – que é o símbolo do pontificado, usado no dedo anular da mão direita. A missa está marcada para as 9h30 (5h30 de Brasília).

O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, disse que o papa emérito Bento XVI não participará da missa de inauguração do pontificado de Francisco. Para os religiosos, Bento XVI quer cumprir o que determinou ao renunciar no último dia  28: viver recluso e em oração.

Na quarta-feira (20), o papa Francisco deve receber os chamados “delegados fraternos”, as autoridades convidadas para a cerimônia de inauguração do pontificado. A presidenta Dilma Rousseff confirmou presença na cerimônia.

(Renata Giraldi, Enviada Especial da Agência Brasil/EBC)

Artigo dominical

O caminho para o mar
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá
 

Um rio, na sua tranquila corrida para o mar, chegou em um deserto e parou. Diante de si, tinha somente pedras espalhadas por todo lugar e dunas de areia a perder de vista. Ficou paralisado pelo medo. – É o meu fim – pensou desesperado – nunca vou conseguir atravessar este deserto. A areia vai engolir a minha água e eu vou desaparecer. Nunca mais chegarei ao mar. Sou um rio fracassado.

Aos poucos as suas águas começaram a ficar sujas. O rio estava virando lama e estava morrendo. O vento, porém, tinha ouvido as suas lamúrias e decidiu salvar-lhe a vida.

– Não tenhas medo, deixa que o sol te esquente. Tu vais subir ao céu na forma de vapor. Depois eu mesmo pensarei o restante.

Mas o medo do rio aumentava:

– Eu não sou feito para voar nos ares, eu devo correr entre as margens, líquido e majestoso.

O vento insistiu e explicou:

– Quando chegares ao céu, vais te transformar numa nuvem. Eu te levarei além do deserto e tu poderás cair novamente sobre a terra, na forma de chuva, vais voltar a ser rio e vais chegar ao mar.

O rio, porém, teve mais medo ainda. Assim foi devorado pelo deserto.

Podemos dizer isso de muitas formas, mas a nossa vida é feita de contínuas transformações. Somos sempre a mesma pessoa, mas também mudamos. As etapas da vida nos fazem passar pela infância, pela juventude, pela idade adulta e, enfim, pela velhice. Os traços pessoais permanecem, no entanto, às vezes, mudamos tanto que ficamos quase irreconhecíveis. As maiores transformações, porém, não são as do nosso corpo. Mudamos muito mais nas ideias, nos afetos, nos pensamentos, nos sonhos e nas esperanças. O ser humano vive em transformação. É por isso que queremos saber de onde viemos e para onde vamos.

Se a vida é um caminho, para onde nos conduz? Podemos encontrar as respostas escutando o que o Filho, Jesus, nos diz, dando ouvido e acreditando na voz do Pai que o enviou. A missão de Jesus foi a de nos fazer conhecer o amor do Pai. Ele quis reconduzir a humanidade ao encontro com Deus, numa nova aliança de amor. Deu atenção aos mais afastados, aos mais sofridos, buscou as ovelhas perdidas. Desmascarou uma religiosidade hipócrita feita de rigor exterior e sem coração. Perdoou e não condenou os pecadores. Entregou totalmente a sua vida a esta missão e pagou muito caro por tudo isso: foi morto na cruz. No entanto abriu o único caminho possível para a verdadeira transformação da vida pessoal de cada ser humano e do mundo inteiro: o caminho do amor. Os apóstolos começaram a entender tudo isso somente na manhã radiosa da Páscoa e ao anoitecer daquele dia quando o reencontraram ressuscitado.

Cada um de nós é chamado a dar um sentido às transformações que acontecem em sua vida. Cada etapa é o fim de algo, mas pode ser também um novo começo. Vale também para os acontecimentos da vida. Alguns são esperados e preparados, outros nos pegam de surpresa e devemos reaprender a conviver com a nova situação. Tudo, em nossa vida, poderia – ou deveria – servir para nos tornar melhores. Mais capazes de amar e sofrer; mais capazes de doar e aceitar ser ajudados; mais capazes de confiar e ser confiáveis. Mais corajosos na fé, mais firmes na esperança e mais generosos no amor. Mais felizes. Nem sempre isso acontece. Muitas vezes mudamos para pior. Ficamos mais egoístas, interesseiros, vingativos e rabugentos. Sempre mais tristes e perdidos. É porque deixamos de prestar atenção e acreditar naquilo que Jesus fez e ensinou. O caminho para a vida nova da ressurreição passa pela subida ao Calvário, tem que morrer um pouco todo dia ao nosso orgulho para deixar a paz do Senhor tomar conta do nosso coração. “Somos cidadãos do céu” nos lembra a carta aos Filipenses neste domingo.

Somos rios que devem correr para o mar, de transformação em transformação. Não somos feito para morrer nos desertos da vida.

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O velho violino
Dom Pedro José Conti
, Bispo de Macapá

Numa casa de leilões, o homem que gritava as ofertas pegou  um velho violino. Estava todo arranhado e a madeira já tinha perdido o seu brilho. As cordas estavam balançando quase soltas. O leiloeiro sorriu e achou que não ia ganhar nada com aquela peça estragada, no entanto o levantou e, como de costume, gritou:

– Qual é a oferta para este velho violino? Começamos com…100 dólares. Quem dá mais?

– Cento e cinco – respondeu um.

– Cento e quinze – gritou outro. Alguém falou:

– Cento e vinte.

– Cento e vinte, cento e vinte – repetia o leiloeiro – Quem dá mais?

De repente, do fundo da sala um homem de cabelos grisalhos levantou-se e pegou no arco. Com um lenço tirou a poeira do instrumento e esticou as cordas. No silêncio da sala, começou a tocar uma linda melodia, doce e suave. Quando a música acabou, o leiloeiro voltou a insistir:

– Qual é a oferta para este velho violino? – Muitas vozes responderam:

– Mil dólares, dois mil, três mil, três mil e um, três mil e dois, e três mil e três, vendido! – finalizou o responsável do leilão. Todos aplaudiram. Mas alguém perguntou:

– O que foi que fez mudar tanto o valor do violino? – Logo chegou a resposta:

– Foi o toque do maestro!

O evangelho das Bodas de Caná é conhecido demais e oferece muitas reflexões. João evangelista explica que este foi o primeiro “sinal”de Jesus. Nós ainda insistimos no “milagre” da água transformada em vinho. Na realidade, o evangelista queria dizer muito mais. Com a presença de Jesus, as coisas velhas se tornaram novas e melhores. Em si, a novidade é uma só: o próprio Jesus, mas isso faz que também a antiga Aliança se torne nova e que o vinho “novo” seja melhor do que o velho. Tudo isso acontece durante um casamento, isto é, um compromisso de aliança entre os noivos.

A figura do casamento é familiar aos profetas quando querem explicar o compromisso amoroso de Deus com o povo escolhido e a sua inabalável fidelidade. O que Deus prometeu ao seu povo, desde o tempo do namoro no deserto, agora vai ser realizado plenamente. O “noivo” chegou para selar, agora, uma nova e eterna aliança. Será para sempre. Os odres do vinho velho secaram; o vinho novo, porém, é melhor do que o anterior e não tem como negar a sua qualidade. A festa do casamento – aliança entre Deus e o seu povo – não somente não irá acabar, como será uma festa ainda mais alegre.

Para o evangelista João, a “hora” de Jesus acontecerá no Calvário – a hora da glória -, no entanto neste primeiro sinal já se manifesta a seriedade do compromisso. Os discípulos começaram a crer nele. Para completar tudo isso, Jesus chama a mãe Maria de “mulher”, exatamente como a chamará da cruz, entregando-lhe o apóstolo João como filho. Jesus irá realizar outros “sinais” ao longo do quarto evangelho. Quem tiver a disponibilidade de segui-lo irá conhecê-lo mais, será confirmado na fé e, no final, também se tornará “filho” tendo Maria como mãe. Isso o evangelista já tinha escrito bem no início do seu evangelho falando da Palavra de Deus feita carne: “A quantos, porém, a acolheram, deu-lhes poder de se tornarem filhos de Deus: são os que creem no seu nome. Estes foram gerados não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade de homem, mas de Deus.” (Jo 1,12-13). A Igreja-comunidade também é a “nova” mãe que sempre gera “novos” filhos na fé.

Podemos parar, já temos motivos suficientes para refletir. Nós somos convidados a fazer parte da festa desta nova aliança e a crer que seja mais perfeita do que a antiga. No entanto não entenderíamos o novo se não reconhecêssemos a bondade do velho. Jesus não veio para abolir a antiga aliança, mas para levá-la à plenitude. O antigo preparou o novo. Foi a palavra do “mestre” Jesus que revelou em plenitude o amor do Pai. Foi a vida doada de Jesus que resgatou o valor inestimável do amor de Deus para com todos. Quase como a música do maestro que deu muito mais valor ao velho violino do leilão.

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O novelo de lã
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Tinha uma grande festa na corte. No salão mais bonito do palácio, o rei recebia as homenagens e os presentes dos súditos. A fila dos doadores já estava quase no final quando chegou uma pobre mulher idosa, apoiando-se num cajado e arrastando os pés. Carregava um pequeno embrulho. Quando chegou à frente do rei abriu o pacote e lhe ofereceu um simples novelo de lã. Era o presente dela e das duas ovelhas que criava. Todos viram e não conseguiram segurar o riso. Aquele não era presente para um rei. No entanto o soberano aceitou a oferta, cumprimentou a senhora e deu a ordem para iniciar a festa.

A idosa saiu da sala entre os comentários sarcásticos dos convidados e voltou para a sua pobre morada. Quando chegou perto, ficou apavorada. A sua casinha estava toda circundada por soldados que estavam colocando piquetes no chão e estendiam entre eles um fio de lã branca. A mulher pensou que tivessem vindo para prendê-la, porque o rei tinha ficado ofendido com o seu humilde presente. O comandante dos guardas, porém, fez uma reverência para a idosa e disse:

– Por ordem do nosso bom rei toda a terra que poderá ser circundada pelo fio de lã, que você levou para ele, será sua.

Assim a generosa senhora recebeu com a mesma medida com que havia doado.

O sentido da solenidade da Epifania vai muito além da forma literária do relato de uma viagem e do encontro dos Magos com o menino Jesus. Apesar do medo, da inveja e do ódio de Herodes, a Epifania é a festa da luz – a estrela – da alegria e da fé. Sobre os Magos, não sabemos de onde vieram e qual outro caminho pegaram para voltar na terra deles. No entanto eles sempre representarão todos os homens e mulheres de boa vontade que buscam um sentido mais profundo e bonito da vida. Precisamos de luz, porque com ela todos nós enxergamos mais e melhor. Na escuridão da ignorância e da dúvida, é muito difícil acertar o caminho. A alegria é, também, a lógica consequência de quem dá um rumo novo à sua vida, cheio de confiança porque está convencido que é o rumo certo. Por fim, confiança é outro nome da fé, sobretudo quando podemos conhecer mais de perto e melhor o nosso Deus. Por sua vez, a fé se torna luz para as nossas decisões nas encruzilhadas da vida e mantém o nosso coração alegre e esperançoso.

Com efeito, a página do evangelho deste domingo reaviva em nosso coração a esperança que um dia todos os povos da Terra possam vibrar de alegria, felizes por ter encontrado o Senhor, por serem capazes de adorá-lo como ele merece, cheios de gratidão e reconhecimento por tão grande amor. Os Magos manifestam esses sentimentos com os seus presentes: o ouro, o incenso e a mirra. Quem entendeu o dom que Deus nos fez vindo ao nosso encontro com a sua humanidade sente a necessidade de também oferecer algo. Mas o que podemos dar ao nosso Rei que ele já não tenha? Os presentes dos Magos, bem entendemos, nada acrescentam à divindade do Menino Deus, nada mudam da pobreza humana que escolheu, em nada amenizam o seu sofrimento e a sua morte na cruz. Reconhecem, porém, quem ele é e o que irá realizar – e já realizou – para esta humanidade ainda tão temerosa e desconfiada.

“Que tens que não tenhas recebido?” (1 Cor 4,11) pergunta Paulo aos Coríntios. É verdade. Sempre pedimos tanto a Deus, cobramos felicidade, bens, alegria, saúde, vida. Damos tão pouco a ele – e aos pobres – e raramente agradecemos.

Ele não precisa dos nossos presentes, mas eles são uma declaração da nossa fé, um humilde reconhecimento da sua grandeza e do seu amor. Somente assim teremos o coração aberto para receber mais, não numa troca, mas na gratuidade e na generosidade que somente o amor explica. É isso que faz todo presente precioso.

Como o novelo de lã da pobre senhora. O que para os outros era sem valor e objeto de zombaria, para o Rei foi um rico presente, porque junto ao fio de lã estava o coração da mulher. É só o que Jesus nos pede, mas é tão difícil e por isso vale muito.

Bairro do Trem celebra a padroeira

Hoje é dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do bairro do Trem.  A programação em homenagem à padroeira neste dia começou às 7h  com Missa Solene. Mais tarde, às  16h, tem  Missa Campal e em seguida a tradicional procissão pelo seguinte itinerário: avenida Cônego Domingos Maltêz, rua Hamilton Silva, av. Antonio Coelho de Carvalho, rua Odilardo Silva, av. Cônego Domingos Maltêz. Após a benção prossegue a programação social.
   
Histórico – Nossa Senhora da Conceição, a segunda paróquia criada em Macapá, é constituída atualmente por quatro comunidades: a matriz, no bairro do Trem; Santa Inês, com a igreja na orla do rio Amazonas; Nossa Senhora de Nazaré, no Araxá; e Cristo Rei, no bairro Pedrinhas. O atual pároco é o padre diocesano Fábio Rogério Bezerra Pereira. Uma das festas mais antigas dedicadas à Imaculada Conceição no Amapá ocorre no bairro do Trem, há mais de sessenta anos, desde 1949, na época da primeira capela de madeira erguida no terreno bem em frente à atual sede do Trem Desportivo Clube.
Em maio de 1950 o missionário italiano do PIME (Pontifício Instituto das Missões Exteriores), padre Antonio Cocco lançou a pedra fundamental da nova capela, consagrada e inaugurada em maio de 1954, pelo bispo da então Prelazia de Macapá, Dom Aristides Piróvano, hoje com a monumental torre ao lado esquerdo, a atual igreja Nossa Senhora da Conceição recebe muitos fieis o ano inteiro, especialmente neste período de festividade.

“A festa da Imaculada Conceição é tempo de renovação espiritual, de um novo fervor e ardor missionário. Celebramos o Ano da Fé e nos aproximamos de mais uma Jornada Mundial da Juventude em 2013, ano que para a nossa paróquia será enfatizada a experiência missionária, um ano de aprofundamento da fé em atos”, orienta o pároco padre Fábio Rogério.
O dia 08 de dezembro é quase um feriado nacional porque muitas cidades no Brasil celebram o dia dedicado a Nossa Senhora da Conceição, a exemplo do Amapá: padroeira do bairro do Trem, em Macapá; do município de Calçoene, no extremo norte do Estado; do bairro Comercial, em Santana; da cidade de Afuá/PA, do outro lado do rio Amazonas, e de tantas outras localidades do interior do Estado.

(Texto: Oscar Filho – Pastoral da Comunicação
Foto: Alcinéa)

Artigo dominical

A pedra ameaçadora
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Ninguém sabia se havia sido um anjo ou um demônio a colocar aquela pedra enorme naquele lugar. Ela estava encostada na montanha, mas podia desprender-se dela a qualquer momento e acabar com boa parte da pequena vila que estava no fundo do vale. Os homens tinham acolhido o desafio de vigiar os movimentos da pedra. Todas as noites, um deles subia ao monte com uma lanterna na mão e ficava observando. Se a pedra saísse do lugar, ele devia avisar a população da vila tocando uma trombeta. Podia chover ou soprar o vento, com a lua no céu ou se caísse neve, um homem vigiava para que todos pudessem dormir em paz. Ficar vigiando a pedra era uma grande fadiga, mas também um orgulho. Na manhã seguinte, aquele homem descia do monte e parecia-lhe que toda a vila estivesse sorrindo para ele, agradecida.

 O tempo, porém, passou e trouxe outras satisfações e outros orgulhos. Assim, aos poucos, pareceu inútil aquilo que antes era considerado importante. Havia séculos que a grande pedra estava lá e nunca tinha se mexido, porque deveria cair logo agora? Também, diziam, era tarefa do prefeito pagar um vigia para este trabalho. E o governador? Que ele também ajudasse com o dinheiro público.

 Depois de muitas discussões, os homens decidiram suspender o trabalho da vigilância. Não tinha mais graça nenhuma continuar. Nunca é fácil gostar do próprio dever. A não ser que a pessoa encontre nela mesma o gosto daquilo que faz e cada dia renove o seu compromisso. Aqueles homens eram atraídos demais por prazeres exteriores para procurar razões interiores. Nunca mais ninguém subiu ao monte para conferir. A pedra ainda está lá, mas já desceu um bom metro rumo ao vale.

No início do tempo de Advento, recomeçando o ano litúrgico, somos convidados sempre a ficar atentos e a vigiar. Podemos pensar em coisas pavorosas, mas não é para tanto. Seria suficiente pensar em nossa vida que passa. Ninguém de nós sabe o que nos reserva o futuro. Como sempre serão alegrias e tristezas, momentos bons e momentos difíceis. A nossa vida é uma mistura de tudo isso.

Estar atentos, portanto, pode significar simplesmente dar atenção ao que está acontecendo e saber reconhecer a presença do Senhor que veio no meio de nós, mas sempre vem para oferecer o seu amor a todos. Pensamos nas situações da vida, mas também nas oportunidades que ela nos oferece. Pessoas que encontramos pelos caminhos do mundo; gestos e ações de bem, de bondade, paz e justiça que podemos realizar.

Vigiar, diz-nos o evangelho deste domingo, é fazer de tudo para não nos tornar “insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida”. Parece o retrato da nossa sociedade: todos tão atarefados, tão preocupados, correndo o dia todo, porém cada um atrás dos seus interesses, com a sensibilidade e, portanto, com a consciência entorpecida. Acordamos quando acontece algo de grave e de sério para nós. Se depois é questão de dinheiro, somos supersensíveis. Brigamos até o fim. Raramente nos deixamos envolver com as dificuldades dos irmãos. Falar em bem comum é discurso para candidato idealista; poucas vezes é fruto de uma consciência de cidadania unida à vontade de resolver os problemas juntos, assumindo a responsabilidade, também pessoal, de construir uma sociedade mais justa e fraterna.

O mistério do Natal de Jesus nos lembra da sensibilidade de Deus que continua vendo e ouvindo os clamores do seu povo e decide estar ao lado do pequeno e do pobre, de todo ser humano que deixa de lado o orgulho e reconhece a sua finitude. Somente assim acontece o encontro entre o amor de Deus e a nossa sede de amor. Também naquele tempo os insensíveis, seguros de si, não souberam acolher o Salvador. No entanto é com ele, o Senhor que vem, que sempre aprendemos de novo quanto vale ter um coração sensível e amoroso.

Ficamos sempre atentos, vigiando para nós e para os outros também, antes que a pedra gigantesca do egoísmo e da insensibilidade nos faça parecer inútil amar. Neste caso, a pedra já teria destruído a nossa vida, porque teria rolado do monte até parar em nosso coração. Talvez sem perceber.