Crônica do Sapiranga

Presepadas do Carrapeta

Milton Sapiranga Barbosa

Benedito Batista dos Santos, nasceu no dia 2 de Março de 1944, no município paraense de Cametá,. No dia 25 de Fevereiro de 1955, já então com 11 anos de idade chegou em Macapá, na companhia  dos primos Manoel do Rosário  e Benedito  Andrade. Por muito tempo morou na casa de número 99, da avenida Mendonça Furtado, no bairro da Favela, sob a tutela  de seus tios, o casal Bingue  e Lali, pais do Olopércio, Haroldo e José Maria Franco,  seus primos-irmãos  legítimos .

Benedito, estudou  no Barão do Rio Branco, Colégio Amapaense, Escola Industrial e IETA.

Carrapeta, entre Cuiú e Caramuru, no time do Favelão
Carrapeta, entre Cuiú e Caramuru, no time do Favelão

Formou-se em educação física com pós graduação na Escola de Educação Física  do Estado  do Pará.  No futebol não ganhou destaque de craque, mas foi utilíssimo cumprindo função tática e fazendo muitos gols pelo Juventus, Trem, Municipal, Ypiranga Clube  e Favelão.
Esse senhor, hoje aposentado, quando moleque no bairro da Favela, foi um  dos mais  levados  que conheci.  Ele  era tão danado  que  ganhou  o apelido de CARRAPETA, e de quem, passo agora a contar , algumas das  presepadas que ele aprontou por aí.

Infância 1 –  Seu  tio e pai de criação Bingue, estava sentindo fortes dores no fígado e mandou o moleque ir  na farmácia serrano comprar  remédio. Ele foi, mas ao passar próximo ao campo da matriz parou para olhar o jogo entre FIJO  E JOT, cujo placar  apontava 1 a 0 para o time do bairro do trem. O técnico da FIJO, Expedito Cunha Ferro ( 91), que já conhecia o futebol arisco  daquele cametaense, convidou-o para participar do jogo. Ele não se fez de rogado, enrolou no calção o dinheiro  que era pra comprar remédio e foi pro jogo, fez o gol de empate e no final  seu time venceu.
Carrapeta voltou para sua casa como herói, mas   sem a grana e o remédio que deveria comprar para seu tio. Sabendo que  uma palmatória, com furo no meio lhe esperava, rápido ele  se meteu embaixo do assoalho. Não teve jeito, foi  dedurado pelos primos  e teve que encarar 50 bolos, 25 em cada mão e com a recomendação: Não chora, se chorar começo tudo de novo.

Infância 2 – Certo  dia  em que sua tia  deixara no ninho de galinha alguns ovos que não foram chocados (não nicaram pintinhos), ele, por corda dos primos, cozinhou-os  e vendeu para o  Sr Amim Richene  (aquele que tinha comércio no canto da  Mendonça com a Leopoldo e  era  concorrente  do seu Manoel da Casa 2 Estrelas). Seu Amim comprou na boa fé  e na boa fé vendeu para um senhor que trabalhava no Banco da Amazônia, que depois voltou para devolver, pois  os ovos  estavam  cozidos e estragados. Nosso personagem, ao avistar  seu Amim conversando  com sua Tia Lali, já sabia que teria de agüentar mais  50 bolos nas mãos  sem chorar, senão a contagem era reiniciada.

Adolescente – Carrapeta, moreno, boa pinta, era  um namorador  incorrigível. Desses que hoje chamam de galinha, mas que eu diria que era um galo. Ele  chegou  a ter várias namoradas ao mesmo tempo, dedicando meia hora para falar com cada uma delas. Num dia 12 de junho, dia dos Namorados, ele  ganhou  de uma namorada que morava no laguinho, um lindo cordão de ouro, e  deu a preciosa  jóia de presente para uma outra namorada  que morava no bairro do Trem. A  morena que  comprou o cordão ficou sabendo que ele dera para uma outra, então convidou uma  de suas irmãs,  e  as  duas  surraram pra valer  a rival. O Don Juan  ficou  sem cordão, sem as namoradas e com  a fama  de safado entre as mulheres.

Adulto 1 – Numa viagem que  fez a Fortaleza-CE, para participar de um congresso para professores de educação física, Carrapeta aprontou  para cima dos Gaúchos. Eles  ficaram hospedados  no Colégio Militar sediado no Bairro da Aldeota, onde a ordem  de recolher  era  às  23 horas. A gauchada costumava perder a hora  e  só chegavam às 5 da madrugada no quartel. Chegavam  e faziam uma barulheira danada, cantando e dançando temas do folclore dos pampas, não deixando   mais ninguém dormir. Por dois dias eles aprontaram  e  o Carrapeta quieto, mas puto da vida. No terceiro dia, ele  foi na feira do bairro, comprou um rádio de alta potência  e uma enorme peixeira, que ele mandou afiar  dos dois lados. Seus amigos estranharam  aquela compra  e  ele disse apenas: me aguardem. Na madrugada do quarto dia de congresso, os gaúchos depois de muito barulheira, se deitaram para dormir., como se nada tivesse acontecido. Quebraram a cara. Naquele momento,  o Carrapeta esfolou o rádio de 10 bands a todo volume  e ficou esperando o baque. Os gaúchos reclamaram  que queriam dormir e quando se dirigiram  para  desligar o  moto-rádio, depararam  com aquele moreno, cara de mau, empunhando a reluzente peixeira  e ameaçando: vem, que vou arriar o bucho de uns  três. Daquele dia em diante,  a dormida do Carrapeta rolou solto madrugada a dentro. No final do congresso, a gauchada se despediu com abraços e deu até presente  pro Carrapeta. É que o Savino havia informado  pra eles, que  da família  do Carrapeta, ele era o mais bonzinho, mas  já tinha até puxado cana, por pinicar  a barriga de um desafeto. Pura sacanagem do Savino, para amedrontar mais os  rapazes dos pampas.

Adulto 2 – Final de mês, dia de pagamento do governo na agência do Banco da Amazônia, à época localizado na Cândido Mendes com Presidente Vargas. Quando o Carrapeta chegou na agência, um mundão de gente se aglomerava na porta de entrada. E agora? Pensou ele, tenho que dar um jeito de passar na frente. Furar não dava. Então, malandramente, nosso amigo introduziu um braço entre as pessoas a sua frente e  com o dedo em riste cutucou as nádegas de alguém e rápido recolheu o braço. Foi um Deus nos acuda, porrada pra todo lado e o Carrapeta, sorrindo, foi um dos primeiros a adentrar  no banco e a botar as mãos na grana..

Adulto 3 – Certa vez  ao  chegar na agência quando o banco acabara de cerrar suas portas para atendimento externo, ele,  precisando receber seu pagamento sem falta, se fez passar por  funcionário dos Correios e Telégrafos. É que um ex-aluno, do seu tempo de vice diretor do Colégio Amapaense,  trabalhava na agência da ECT-Macapá e chegara na agência para entregar alguns malotes oriundos do Banco Central. Ao avistar o rapaz, o Carrapeta não perdeu tempo, falou com  ele, pegou 2 malotes  e  se foi banco a dentro, lampeiro e pimpão.. O segurança ainda tentou tirá-lo, mas quem  disse que ele saiu. Recebeu seu rico dinheirinho e saiu  na maior cara de pau da paróquia.

Meu amigo  Carrapeta, hoje, com os filhos todos formados em nível superior, sofre de diabetes, já teve que amputar parte do pé, o   dedo de uma das mãos  e  está  com a visão comprometida.  Todos os sábados nos  reunimos em sua residência e  batemos longos papos, relembrando  os  momentos felizes  vividos no nosso querido bairro da favela. Ele tem muito mais histórias interessantes e hilariantes, mas por enquanto só me autorizou a  contar, sem cortes,  as narradas acima.

Lembras…

1977quando o  Guarany Atlético Clube foi o campeão amapaense de futebol em 1977?
Olha aí o empresário e desportista, presidente do Clube, Moacir Coutinho recebendo o troféu.
Quem identifica os outros que aparecem na foto? Quem lembra a escalação do time?

Amanhã tem clássico no Glycerão

Ypiranga e São José se enfrentam amanhã, domingo, a partir das 17h no estádio Glycério Marques, em jogo válido pelo Campeonato Amapaense.

Quem arrisca um palpite?

Enquanto você pensa no palpite que vai dar, que tal tentar identificar os craques do Ypiranga e São José que brilharam no Glycerão na época do futebol amador?

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Memória – Futebol (1)

Inauguração do estádio Glycério Marques
Inauguração do estádio Glycério Marques

Mais antigo que o Maracanã, o estádio municipal Glycério Marques, em Macapá, foi inaugurado em janeiro de 1950, com um jogo entre as seleções do Amapá e Pará. Uns dizem que a inauguração foi dia 14, outros asseguram que foi 15. Eu não sei.
Comecei a frequentar o estádio – que era chamado de Gigante da Favela e de Glycerão – no início dos anos 70, quando trabalhava como repórter esportiva do Jornal do Povo. Na época não havia iluminação, portanto nada de jogos à noite. O campeonato era disputado no domingo à tarde, com a preliminar (chamada de esfria-sol) começando às 14 horas e a principal às 16h.
Geralmente a preliminar era feita pelos times menores, como o União e 13 de Setembro. O 13, coitado, certa vez não tinha dinheiro nem para comprar as chuteiras e os “craques” tiveram que jogar de chulipa – que não tem atrito – aí era um “cai-cai” que não acabava mais.
Em 1975 quando Manuel Antônio Dias era presidente da FAD (hoje Federação Amapaense de Futebol) o “Gigante da Favela” passou por uma grande reforma, talvez a mais importante da sua história, visto que recebeu iluminação e um gramado que era um primor. Ah! as torres de refletores deixavam o povão boquiaberto, pois nunca se tinha visto isto por aqui. Era uma beleza!
Para a reinauguração a FAD mandou buscar a Seleção Brasileira de Amadores que veio com todos os seus craques, entre eles o Éder, ponta-esquerda do Atlético Mineiro.

Ele brilhou no Glycerão

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Jogando na ponta ou na meia-esquerda, no Guarany ou no Trem, Waldir dava show e levava a torcida ao delírio.

Você viu o Waldir jogar? Se viu lembra que ele  um craque daqueles que fazia o adversário comer grama.Se não viu, azar o seu.

Ainda apaixonado pelo futebol, hoje ele é instrutor de uma escolinha na arena Mané Garrincha, no bairro Zerão. E garante que de lá vão sair muitos craques.

Na segunda-feira à noite costuma assistir aos jogos da Copa Marcílio Dias e na quarta bate bola com outros veteranos, ou boleiros, na Praça da Conceição. E depois da “pelada” a turma reúne no bar da praça para contar histórias e causos da época do futebol amador, quando o Amapá era chamado pela imprensa esportiva do Pará de “celeiro de craques”.

Oratório x Ypiranga hoje no Glicerão

076 Oratório e Ypiranga abrem hoje o Amapazão-2009 no estádio Glicério Marques.

O clássico começa às 18h30, com arbitragem de José Mário. Os ingressos custam apenas  8 reais (inteira) e 4 reais (meia).

Quem arrisca um palpite para este jogo?

(Dias, não deixa o Claudionor ficar pendurado no alambrado :lol:)

Atualização às 21h – O Ypiranga venceu o Oratório por um zero. Claudionor – conhecido pé-frio – não pode ser culpado pela derrota do Oratório, pois ele nem passou perto do Glicerão hoje. Né não, Dias?

A Favela no futebol amapaense

Milton Sapiranga Barbosa, especial para o blog

Sim, no tempo do amadorismo de priscas eras, o bairro  da Favela  tinha  dois  clubes  disputando os campeonatos organizados pela Federação Amapaense de Desportos(FAD).

cb_sao_jose-ap-5Um era o São José, do seu Messias, onde jogavam, entre outros, Bulhosa, Pantera, Jurandino (Carudo), Justo, Raminho e Mosquito, cuja sede ficava na esquina da Leopoldo Machado com a Presidente Vargas, mas um acordo entre Messias e Humberto Santos, levou o São José  para o bairro do Laguinho.

O outro era o Araguary Esporte Clube, sendo que este não tinha sede, a turma se reunia na casa de um dos atletas, escolhida aleatoriamente. Nesse tempo, Araguary e Fazendinha era o grande clássico da segunda divisão (Santa Cruz, Primavera, Guarany, depois Ypiranga e Santana, sem esquecer o Atlético Latitude Zero, também  integraram a segundona da FAD).

Sempre que Araguary e Fazendinha se encontravam o Glicerão ficava apinhado de gente. Mauro, Abiezer, Beto, Barata, Bento, Carneiro, Dioneto, Elionay, Ferramenta, Peteca e Palito (um carvoeiro bom de bola, que chegava sempre em cima da hora para jogar, pois antes precisava desmanchar suas caieiras)   e  Nolasco, eram alguns  dos integrantes do Araguary Futebol Clube. Pelo Fazendinha, destacamos Zezé (um goleiraço), Marinheiro, Flávio Góes, Valdir  e seu irmão Papaarroz (um cracaço, que batia penalty de letra) e Estrela.

Eu  gostava de estar entre a rapaziada do Araguary para ouvir as  histórias  das viagens que o time fazia pelo interland amapaense. Nolasco,  meu vizinho, era um jogador razoável, mas muito bom para contar histórias e rápido  para  fazer uma paródia, fosse qual fosse a situação, senão vejamos: certa vez, numa excursão a Mazagão, no tempo  em só se chegava ao município por via marítima, Nolasco não  foi  escalado de saída no time que iria  enfrentar a seleção mazaganense. Terminado o primeiro tempo, começa o segundo e o Nolasco no banco de reservas. Jogo já no final do segundo tempo, eis que ele  é chamado  para substituir um companheiro,  ele se negou e saiu-se  com essa : “eu fui  em Mazagão/ fiquei encabulado/ pois só comi feijão e ainda fui barrado./ quando jogo estava pra terminar / técnico veio me chamar pra entrar lá no gramado/ eu não sou doido e também não sou maluco/ pra entrar lá no gramado e jogar  cinco minutos.”

Doutra feita, eles  se reuniram e metidos na roupa de domingo, foram  a  uma  festa    no bairro do Laguinho (aquela época, já rivalizando com o bairro da Favela, por causa do Marabaixo e do boi bumbá). Todo mundo alinhado, festa animada, muita cocota no salão e eles de fora olhando, pois  o porteiro não deixou eles entrarem. Aí o Nolasco criou uma musiquinha, que tinha um trecho que dizia assim: “Fui numa festa lá no Mestre Julião/ deu meia noite o baile vai começar/  se  é  do Laguinho o porteiro manda entrar/ se é da Favela ele faz voltar”.

O  Araguary  é do tempo que se dava chagão (jogar a bola por um lado do adversário e correr pelo outro e contiuar a jogada – hoje drible da vaca), do avião ( hoje chapéu, lençol), por baixo da saia ( hoje entre as canetas), do xilique (joelhada forte na coxa do oponente e doía uma barbaridade (hoje chamam tostão). O Araguary e seus  integrantes, suas histórias e paródias são lembranças de minha infância feliz viviva no meu querido bairro da Favela.