Tiaguinho – Chuteira e coração de ouro

Nos braços da torcida

Num distante Natal em Mazagão, Papai Noel enfrentava uma crise. Daí resolveu que em vez de dar um presente para cada um, daria um presente que servisse para duas ou mais crianças da mesma casa. E assim fez. Numa das casas, onde existiam dois moleques, deixou  apenas uma bola de futebol. Os meninos gostaram tanto do presente que por vários dias dormiram agarrados com ela. Cada noite a bola era de um. Parece que Papai Noel tinha visto o futuro dessas crianças, pois anos mais tarde esses dois irmãos começaram a brilhar nos gramados.

E sabem quem eram esses meninos? Dida e Tiaguinho. Dois craques do futebol. Um jogando no gol e o outro na ponta direita.

Os irmãos Dida (Macapá) e Tiaguinho (Independente)

“Minha primeira bola foi um limão galego”, me contou Tiaguinho. Na casa onde morava havia um grande quintal com pomar muito bem cuidado por sua avó. Ele apanhou um enorme limão galego que serviu de bola para as primeiras peladas que fez com os coleguinhas naquele quintal que serviu de campo de futebol. E a avó não brigava? Não. Ela até gostava porque onde eles brincavam não nascia mais mato.

Quando Tiaguinho tinha dez anos de idade seu pai, Germano Soares, que era zagueiro, foi chamado para administrar a área de esportes do Santana Esporte Clube. Assim a família transferiu-se para Santana e Tiaguinho e Dida ingressaram no Santaninha (foto acima). Passou 12 anos defendendo a camisa do Canário Milionário. “O Santana era a nossa casa”, diz. Em 1981 mudou-se para o Independente Esporte Clube, o “carcará da Vila Maia”, e foi dele o gol que deu o título de campeão ao IEC em 1982 vencendo o Amapá Clube por 1 a 0.

No ano seguinte, foi para Belém. Tinha convite do Remo e da Tuna. Optou pela Tuna seguindo orientação do saudoso jornalista e técnico Aloísio Brasil.

Mas o futebol paraense já estava de olho nele há bastante tempo, pois em 1974 – quando jogava pelo Santana – foi convidado pelo Remo. Mas a mãe não deixou seu garoto ainda muito novo ir morar na cidade grande.
“Meu sonho era ser jogador profissional. Aqui o futebol era amador por isso fui”. Até hoje é festejado pela torcida da Tuna e quando chega na Tuna em Belém é recebido com tapete verde, alegria, abraços e muito carinho. Afinal, nos seis anos que defendeu as cores da Tuna deu muitas alegrias. Foi ele que marcou o gol que deu o título de campeã da série D na Taça de Prata em 1985. E foi a primeira vez que um time da região norte ganhou um título brasileiro. Mas antes disso ganhou vários títulos no Pará como o de campeão em 1983; este muito importante para ele, pois foi seu primeiro campeonato como jogador profissional. “A imprensa aqui do Pará o tem na melhor conta”, diz o jornalista Euclides Farias.

Depois de seis anos na Tuna, passou uma curta temporada – porém marcante –  no Remo e no Paissandu, pois já queria retornar para suas raízes.

Recorte de jornal paraense

Assim em 1992 aceitou convite do Ypiranga Clube e, claro, foi campeão. No ano seguinte foi para o São José – e também foi campeão. Por onde Tiaguinho passou carimbou a trave do adversário e conquistou títulos. Mas diz que nunca teve “ganância” por gol. “Se eu perdesse um gol não ficava abalado, o que eu queria era dar o passe, fazer o cruzamento, para o companheiro fazer o gol. Ah, se eu errasse um cruzamento isso sim me abalava”, conta. Falar nisso, ele diz que um dos grandes sonhos dele era cruzar uma bola para Antônio Trevizani – um dos seus ídolos – fazer gol.

Com o ídolo Antônio Trevizani

Como técnico, Tiaguinho também acumula vitórias: foi campeão pelo Independente, Santana, Ypiranga e comandou a equipe do Mazagão na Copa Norte.

Em 1997 foi convidado para dirigir tecnicamente clubes do Pará, mas preferiu ficar onde tudo começou: na sua terra Mazagão, como secretário de esportes.

Hoje, aos 61 anos de idade, a paixão pela bola permanece. Joga em time master e coordena a equipe de futebol da AABB. Seu preparo físico é de dar inveja em muito jovem. Tiago ainda corre veloz como um raio pelos campos de futebol e, pasmem, sendo Tricampeão Invicto, pelo seu time do coração, no caso, o Santana Esporte Clube”, diz o advogado e escritor Cléo Araújo.

É presidente da Excrete – a associação que congrega ex-jogadores – e vem sendo estimulado a disputar a presidência da Federação Amapaense de Futebol, onde trabalhou por dez anos exercendo cargo de vice-presidente e de diretor. “O futebol do Norte deve muito ao Tiago e as portas da CBF estão sempre abertas para ele”, estimula o vice-presidente da CBF, Coronel Nunes.

Tiago é caseiro. Dorme cedo e acorda cedo. Começa o dia regando suas plantas – uma outra paixão. Não bebe, não fuma. Corre, faz caminhadas e passeios com a amada esposa Laurides – com quem está casado há mais de 15 anos e brinca com os netos.

Os amigos dizem que Tiaguinho tem coração de ouro, maior que qualquer estádio de futebol, pois está sempre pronto para ajudar até quem ele não conhece. “Ele tira seu próprio sapato do pé para dar a alguém que não tenha sapatos. Ele quer e gosta de ajudar todo mundo. Isso faz bem pra ele”, contam.

Há muito ainda para contar sobre esse craque, ídolo das torcidas no Amapá e no Pará e um ser humano fantástico que com sua simplicidade, talento e alma de ouro tem uma multidão de fãs, admiradores e amigos.

Tiaguinho e sua esposa Laurides são meus amigos. E eu me orgulho dessa amizade

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